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OUTRAS LEITURAS

Divulgação de textos sobre sociedade, política e outros, através de outras vozes e a propósito de tudo ou quase tudo.

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Geografia Social Urbana em contexto educativo: Parte II

Manuel_AR, 16.10.23

Knowledge = Power

3. O papel da Geografia Social Urbana na educação social

    • Pontos de partida

           As cidades onde vivemos: intervenção pedagógica nas cidades

A cidade é um objeto de estudo interdisciplinar. Normalmente a pesquisa em temas sobre estudos urbanos incluem a segregação, os comportamentos demográficos através do espaço e do tempo, história e culturas, planeamento urbano, economia no espaço urbano, instituições e redes onde podemos ainda incluir relações entre ecologia e economia, o global e o local, o público e privado e pessoas e lugares.

No contexto da pedagogia social, “as estratégias de intervenção deverão favorecer a emergência dos lugares antropológicos”.  Trilla (1999) sublinha “o papel das cidades enquanto agentes educativos” e que “de forma implícita, todas as cidades têm o seu plano de estudos”, cujo currículo oculto é composto por “elementos de cultura, formas de vida, normas e atitudes sociais, valores, tradições, expectativas e desejos.”. Nesta perspetiva, ao pensarmos que o Homem e a sociedade condicionam e são condicionados pelos espaços onde se movimentam, que adaptam e transformam, os agentes de intervenção social não podem acomodar-se com o desconhecimento, no que reporta às realidades socio-espaciais onde se irá mover e intervir.

Apenas como exemplo de uma destas realidades sociogeográficas, salientamos o caso dos jovens em risco que, atualmente, não são um fenómeno circunscrito a uma determinado espaço ou lugar que, a par de outros problemas, “avança dos perímetros mais degradados para áreas socialmente favorecidas, antes consideradas imunes à marginalização designadamente por delinquência, pela toxicodependência, pela desagregação dos laços familiares e por conflitos com a escola.”. (Carvalho 2004:89).

  1. Geografia Social Urbana e as questões operacionais e campos de aplicação

Para a formação como seja em Geografia Social Urbana não é suficiente estruturar um texto e segui-lo na aula de forma mais ou menos inteligível como se de um sumário se tratasse. É necessário encontrar o essencial e os conteúdos mais relevantes sob os múltiplos aspetos face a vários contextos. O domínio dos conteúdos, assim como a fluência e o distanciamento para os “reconstruir” numa situação de ensino-aprendizagem aberta é essencial. Podem, assim, aproveitar-se ocasiões, a partir dos interesses dos alunos, para explorar acontecimentos de modo a favorecer a apropriação e a transferência dos saberes, sem necessidade de passar por uma exposição metódica e magistral, como se tratasse de uma prescrição ordenada de um sumário.

Numa situação de aprendizagem a transferência de um contexto a outro que compartilhe características similares é um dos fatores mais importantes, tão bem como a generalização a outros contextos é um dos principais objetivos, nomeadamente na vida profissional. Ao aprenderem a resolução de determinado tipo de problemas ou, ao exercitarem uma aprendizagem pretende-se que os alunos, quando na vida ativa, sejam capazes de, face a situações concretas e problemáticas, e apoiados em conhecimentos anteriores, os possam analisar e propor soluções. Como o tempo de aprendizagem se encontra associado com a prática e com a transferência da aplicação de saberes e saberes-fazer, a aplicação prática daquele princípio levanta-nos o problema de saber qual deve ser o tempo de aprendizagem dedicado à prática e qual o tempo ótimo entre duas sessões[5].

Como salientámos em ponto anterior a aprendizagem é mais significativa quando se é capaz de relacionar as experiências da vida quotidiana com os novos conteúdos informativos recebidos, mas não deixa de ter os perigos da espontaneidade de determinadas práticas docentes, especialmente aquelas que pretendem desenvolver a motivação do aluno a partir do superficial e do quotidiano. Este procedimento esteve muito ligado aos estudos geográficos do meio local e eram centrados em abordagens psicológicas muito simples derivadas de uma leitura reducionista dos estudos de Piaget sobre a aprendizagem. Quando a escala geográfica se coloca ao nível da cidade ou das áreas suburbanas, para se efetuarem as aprendizagens a partir do quotidiano dos estudantes é estrategicamente conveniente estudar bairro a bairro, ou pela divisão setorial da cidade por exemplo, ao nível da freguesia.

A aquisição e a destreza de competências devem efetuar-se através das aulas práticas que mostram ao estudante como atuar através de uma modalidade de organização da aula em que se desenvolvam atividades de aplicação dos conhecimentos a situações concretas e de aquisição de aptidões básicas e de procedimento relacionados com a matéria. Claro que, no caso da Geografia Social Urbana, não se podem efetuar experiências deslocando pessoas nem modificar o espaço físico-social para demonstrar determinadas hipóteses é no entanto possível analisar e comparar os espaços em função do tema em estudo, questionando, problematizando e propondo alternativas, pelo que é essencial o trabalho de campo como aula pática.

Existem vários níveis de atividades práticas em função dos objetivos, métodos e procedimentos que forem definidos pelo docente/formador de entre os quais destacamos e caracterizamos somente duas que se aplicam ao caso que estamos a tratar:

  • Investigação aberta: formulação com clareza de uma situação problemática identificada pelo estudante e o desenvolvimento dos procedimentos adequados para a sua resolução e interpretação dos resultados. Por exemplo, quais os grupos minoritários mais segregados em termos residenciais (caso dos bairros marginalizados e problemáticos) nas cidades e que processos são responsáveis por estes modelos? O aluno deve então operacionalizar o problema através da colocação de hipóteses e atividades a realizar como pesquisa de informação in loco, pesquisa bibliográfica, análise e interpretação de dados recolhidos e, por último, interpretação dos resultados e retirar de conclusões. Em síntese: identificar o problema, procurar soluções, analisar cada uma das suas consequências e decidir pela solução a adotar.
  • Projetos: permitem o aprofundamento de um determinado tema em que os problemas são identificados pelo estudante partindo da observação, caracterização, diagnóstico e proposta para de resolução.

De modo que os estudantes possam estar conscientes do interesse que os temas trabalhados vão ter uma consequência prática é de toda a conveniência que as aulas práticas tenham lugar em espaços exteriores à sala de aula o que requer uma organização temporal especial compatível com a globalidade dos temas e das atividades a serem realizadas, e, se possível, com uma interdisciplinaridade com outras unidades curriculares. A planificação das aulas práticas no exterior é complexa pela necessidade de prever as deslocações aos lugares nos quais se vão realizar o que pressupõe uma organização que depende de outras unidades curriculares. 

Com estes pressupostos não pretendemos defender que as aulas teóricas deixem de fazer parte das estratégias metodológicas da unidade curricular, mas que sejam uma modalidade organizativa do ensino utilizando, como estratégia didática, o desenvolvimento pelo docente dos temas/matérias de estudo e dos conceitos fundamentais.

Cada docente tem um modo particular de gerir este tipo de aulas que são função das decisões que adota, da finalidade da sua atividade durante a aula e da metodologia e didática utilizadas. De entre os objetivos mais comuns indicam-se alguns que podem ser orientadores para uma aula teórica de Geografia Social Urbana  aplicada à educação social:

  • Expor os conteúdos relacionados com o objeto de estudo baseado em narrativas, estudos de caso, sínteses de investigações, síntese de resultados.
  • Relacionar fenómenos já estudados e empiricamente testados com as teorias subjacentes colocando hipóteses e novas soluções.
  • Observar cartografia urbana comparando áreas e dados estatísticos com casos práticos evidenciados no terreno.
  • Propor enunciados de problemas para resolução baseado em situações reais.

   

  1. Enquadramento geral dos temas e conteúdos

O domínio da Geografia Social Urbana pode ser um veículo a partir do qual se pode abordar, com atualidade, temas relevantes que se podem exemplificar seguinte forma:

  • Nem todos os seres humanos têm uma habitação para se resguardarem e desenvolver a sua atividade privada. Caso, por exemplo, da distribuição espacial dos sem-abrigo nas grandes cidades.
  • Perceção e consciência sobre um território para a promoção de políticas locais e nacionais que sejam fonte de marginalidade e conflitos.
  • Nem todas as pessoas possuem trabalho, através do qual podem desenvolver as suas capacidades físicas e intelectuais, há, portanto, necessidade de conhecer a da distribuição geográfica do desemprego a nível nacional, regional ou urbano para se agir em conformidade.
  • No crescente processo de urbanização coabitam pessoas que vivem em situação de marginalidade social com outras que dispõem de todos os meios económicos e materiais. Trata-se se saber onde se localizam e como interagem.
  • O crescimento demográfico cria problemas de superpopulação em algumas zonas enquanto noutros aumenta o processo de envelhecimento com a consequente necessidade de intervenção e de educação social.
  • O fraco respeito para com os componentes do ecossistema faz com que o ser humano coloque em perigo algumas áreas a nível regional, local e global pondo em perigo a estabilidade do planeta. As regiões urbanas não ficam alheias a esta problemática.

Alguns destes temas enquadram-se no conceito de “cidades educadoras” criado e apresentado em 1990 no I Congresso Internacional de Cidades Educadoras na cidade de Barcelona tendo como objetivo valorizar o papel das cidades na construção da identidade individual e comunitária dos cidadãos concorrendo para ações preventivas no âmbito dos comportamentos de risco. É um novo paradigma em que percecionamos o meio como agente e conteúdo de educação de modo a que todas as dimensões do processo educativo funcionem de modo coordenado para uma educação integral.

É essencial conhecer as caraterísticas das localidades que incluem o status[6] socioeconómico, de religião, de nacionalidade dos seus habitantes, mas, também, a sua geografia, demografia, distribuição espacial e disponibilidade de serviços sociais. É neste contexto sociogeográfico complexo e interativo que se pode intervir, como agente de transformação de mentalidades, para uma mudança significativa na comunidade. Mas, para isso, é necessário que haja um distanciamentopara se poder avaliar a situação de forma crítica, e, , estar-se inserido no meio para apreender a sua realidade.  

Subestimar a necessidade de reconhecer e perceber o espaço geográfico de entre as diferentes áreas geográficas e a caraterização social do espaço onde se poderá intervir será o mesmo que um invisual querer arrumar uma casa que desconhece e cujas divisões não vê.

  • Metodologia seguida

Como aproximação à Geografia Social Urbana aplicada à educação as diferentes questões foram divididos em blocos temáticos, organização que considerámos mais adequada mas que,  sendo apenas sugestões podem ser substituídos por outros desde que o corpus científico da Geografia Social Urbana não seja desvirtuado.

Os blocos são precedidos por questões essenciais que sob a forma de perguntas de partida para o seu desenvolvimento, alguns deles com sugestões de trabalhos de campo e aplicações práticas para acompanhamento do estudo teórico. Em cada bloco temático o título encontra-se evidenciado a negrito e itálico e cada um deles inclui apenas tópicos breves e sínteses dos conteúdos, cujo objetivo é servirem de guia durante as aulas ou apoios tutoriais e devem ser desenvolvidos pelo professor, pelo trabalho autónomo do aluno com recurso à pesquisa documental. Algumas das sínteses foram pormenorizadas com a finalidade de se explicitarem temas e conceitos mais complexos.

Considerámos conveniente propor temas por excesso de modo que o docente/formador possa optar ao planificar a sua aula, tendo em conta o interesse dos alunos/formandos e o plano curricular do curso. Porém, deve ter-se em conta as competências que os alunos/formandos irão adquirir quando da seleção dos conteúdos.  

No final dos blocos temáticos apresenta-se uma bibliografia[7] aconselhada que poderá servir para mais do que um tema sem prejuízo de outra que possa ser indicada pelo docente no decorrer das aulas.

 

  1. Blocos temáticos e síntese dos conteúdos

 

Bloco temático 1: Geografia Social Urbana  como ramo da geografia humana

Questão essencial: Com que base podemos considerar a Geografia Social Urbana como um ramo da geografia humana?

A tendência para os estudos quantitativos em geografia humana a partir de 1970. As aplicações práticas da geografia humana. A Geografia Social Urbana no contexto das ciências geográficas e delimitação do seu objeto. Estudo das relações entre as sociedades e os espaços. A geografia social como estudo dialético entre os homens e o meio e considera o espaço onde vive como um produto da sociedade que o constrói, organiza, nele vive e nele se representa. Centra-se na “espacialidade” do social recorrendo a conceitos provenientes de ciências como a sociologia como auxiliar mas tendo sempre presente os estudos espaciais.

Bloco temático 2: A cidade: objeto de estudo da Geografia Social Urbana

Questão essencial: O que é a cidade e qual o seu objeto de estudo?

Cidades definição e critérios de distinção. Onde acaba a urbanidade e começa a ruralidade. O estudo do processo de urbanização pode ajudar a uma definição.

A distinção entre o que é rural e o que é urbano é fácil ao nível do senso comum mas torna-se mais difícil fazer a distinção em termos precisos e científicos. Morfologia e funções urbanas. As redes de cidades. A cidade é um objeto de estudo interdisciplinar. A pesquisa de temas em Geografia Social Urbana  inclui a segregação, o comportamento espacial ao longo do tempo, a demografia, a história, as culturas, as políticas de planeamento, economia e espaço, instituições, redes socias e muitos outros. Elementos que contribuem para as definições de cidade: cidade como entidade física, área dedicada à urbanização e com a perceção mais conhecida principalmente porque é relativamente fácil de visualizar; cidade de consumo na qual ocorre a maioria do consumo de bens e serviços; cidade do emprego, área em que está empregada a maior parte da força de trabalho; cidade força de trabalho, área atrativa para procura de emprego e de oportunidades para uma maioria de população (Parr, 2007:281).

 Bloco temático 3: Métodos qualitativos e trabalho de campo de observação

Questão essencial: Quais os métodos de investigação em Geografia Social Urbana?

O método quantitativo permite a descrição da estrutura geográfica da cidade através de dados estatísticos sob a forma de mapas, grafos, tabelas e equações matemáticas. Neste método os valores e atitudes do observador não influenciam a análise. Na falta de informação quantitativa o método qualitativo e a observação como trabalho de campo, podem ser utilizados em estudos na área da Geoeografia Social Urbana. Quando corretamente utilizados tornam possível um olhar fiável tendo em conta os pressupostos que sustentam o método. Algumas questões que se podem colocar para a obtenção de informação qualitativa:

  • Na área dos lugares e pessoas: que tipos de pessoas ocupam um determinado espaço e em que se ocupam? Como se vestem essas pessoas? O que nos sugere a aparência e as práticas da vida social e cultural dessas pessoas?
  • Na área da construção dos edifícios: que tipos de edifícios estão localizados numa determinada área e que tipos de valores culturais transmitem? Existem monumentos nesses espaços? Que espécies de valores culturais transmitem? Existem sinais de resistência a esses valores (por exemplo grafitis)?
  • Na área das sensações transmitidas por um local: o que se sente quando se observa uma área e a sua vida cultural? Como se sentia se tivesse que participar na vida cultural desses locais? Acha que se poderá vir a propor alterar a área à medida que a vai conhecendo e estudando?

 

Bloco temático 4: Problemas de medidas e delimitação de cidade. Dimensão e demografia.

 Questão essencial: Que problemas se levantam para um consenso sobre a delimitação das cidades?

Os conceitos à volta da delimitação das cidades. A não existência de delimitação fixa entre zonas urbana e zonas rurais e de continuidade do espaço urbano, levanta a questão sobre onde acaba a cidade e começa o campo. A distinção oficial da dicotomia rural-urbano é pragmática e anacrónica não ajuda a uma definição satisfatória. O contributo do fator urbanização na expansão urbana pela construção tem levado ao recuo de espaços rurais. As zonas intermédias identificadas por designações como “subúrbios”, “dormitórios”, “zonas suburbanas” também levantam problemas de delimitação. O método mais comum para a definição de cidade: a fixação de um número mínimo de população ou a densidade populacional é pouco rigoroso porque levanta problemas de delimitação de “fronteiras” urbanas tornando-se arbitrário. A classificação das cidades através das funções centrais. De acordo com a teoria dos lugares centrais o tipo e o número mínimo de funções centrais definiria o que está ou não no domínio do urbano. Função central atividade realizada pelo indivíduo ou entidade empresarial que fornece bens centrais. Bem central é o produto ou serviço obtido a partir de um ponto que ocupa uma posição central em relação à população (ou mercado) que serve. Lugar central é o ponto o espaço geográfico onde se exercem funções centrais.[8] A definição de cidade numa perspetiva sociocultural tem como base o conhecimento dos grupos sociais que nela vivem vendo-a como um “modo de vida”, rejeitando medidas de dimensão, densidade e estrutura de ocupação e de funções centrais. A importância a dimensão de um agregado populacional porque afeta as relações entre os seus membros, aumentando o processo de diferenciação que conduz à segregação.  

  • Sugestão para aplicação prática

Com o apoio da cartografia do Anexo I verificar e as fronteiras da cidade de Lisboa e da região denominada Grande Lisboa. Comparar as caraterísticas demográficas das freguesias pelo tipo de população e de habitação.[9]

 Bloco temático 5: A dialética socio-espacial

Questão essencial: como é que a estrutura da cidade pode refletir mudanças económicas, demográficas culturais e políticas?

Mudanças económicas e reestruturação urbana. A tendência dominante tem sido a passagem da agricultura e da indústria para a atividade de serviços. Modificações que têm sido tomadas nas grandes cidades e que originam transformações económicas. Nas cidades, lado a lado com grandes empresas de serviços e de multinacionais há trabalhos em que predomina mão-de-obra pouco qualificada, por vezes sem documentação (imigrantes clandestinos). Novas realidades sociais que coexistem na mesma unidade funcional tornam complexos os estudos geográficos das grandes cidades.

Alteração e composição demográfica. O crescimento demográfico nas décadas de 50 e 60 do século XX e a sua influência duradora nas sociedades veio a refletir-se nas áreas urbanas. Métodos de controlo e de planeamento familiar vieram, posteriormente, a reduzir a taxa de natalidade (número total de nascimentos num determinado período, normalmente um ano, pela população média nesse mesmo período). Os grandes centros urbanos têm sido, ao longo dos anos, locais de receção de populações de diferentes países devido à imigração. Consequência da imigração é o aumento da diversidade cultural e étnica e de constituição de uma diversidade de bairros habitados por diversas etnias atraídas por oferta de melhores condições de vida. O acesso massivo das mulheres ao mercado de trabalho veio influenciar o modelo de educacional e o rendimento familiar. A mudança de estilos de vida e o consumismo tiveram tendencialmente consequências na Geografia Social Urbana .

  • Sugestão para aplicação prática  

Com recurso a bases de dados estatísticos efetuar um estudo demográfico comparativo de freguesias de uma grande cidade. Por exemplo Lisboa. A distribuição étnica na região de Lisboa.

 Bloco temático 6: A cidade e mudança cultural

Questão essencial: Que fatores têm contribuído para alterações culturais e de hábitos de vida nas cidades?

Valores materiais e de consumismo têm sido as tendências culturais dominantes. O materialismo como tendência e a procura do lucro. Tendência para aquisição de habitação própria. A enfase na casa e no seu conteúdo como expressão de identidade e promoção social. As telecomunicações digitais e inovações eletrónicas como fatores de promoção e de homogeneização cultural.

Mudanças políticas e a dialética socio-espacial: Mudanças políticas podem provocar mudanças importantes no contexto social urbano como por exemplo na habitação e nos serviços públicos. Numa perspetiva mais ampla as mudanças podem ser efetuadas com a deslocação do consumo coletivo para a acumulação de capital. Desindustrialização e recessão económica podem agravar as disparidades socio-espaciais, com mudanças de política no interior das cidades.

 Bloco temático 7: A construção social do espaço e identidade social

Questão essencial: Como está segmentado e diversificado o espaço social na vizinhança das grandes cidades e como se constrói a identidade social?

Os subúrbios tradicionais, onde se localizam as classes trabalhadoras, e a sua organização e em conjuntos habitacionais de propriedade horizontal. Os “guetos” como conjuntos habitacionais periféricos, a população de novos imigrantes, as famílias trabalhadoras pobres e o sentimento de exclusão do “direito à cidade”. O desemprego, a flexibilização do mercado de trabalho, a crescente economia informal, a retração do estado-providência e o aprofundamento das desigualdades sociais, têm tido importantes consequências no agravamento das condições de vida em bairros marginalizados (nível estrutural) (Musterd et. al (2006).

A visão subjetiva do espaço relacionada com o processo conducente à formação de uma identidade social. As cidades e o seu contributo crucial para a formação da identidade social. A área de uma cidade pode servir como instalação social onde se expressam valores culturais específicos. Em contraste os subúrbios e os bairros periféricos formam e moldam à sua maneira culturas e valores que se tornam modos de vida.

  • Sugestão para aplicação prática

Análise sociogeográfica para posterior discussão tendo em vista cultura e valores dos bairros de Cova da Moura, Vale da Amoreira ou Lagarteiro como exemplos possíveis.

Bloco temático 8: A teoria da ecologia urbana e a sua aplicação prática. Modelos espaciais.

Questão essencial 1: Em que teorias se apoia a estruturação do espaço social e habitacional urbano?

Questão essencial 2: Quais as principais diferenças que têm influência na qualidade de vida nas cidades?

Uma região urbana (cidade) pode ser considerada como uma coletividade social multifuncional territorialmente delimitada, com formas históricas, geográficas, técnicas e sociais diferentes que cobre realidades socio-ecológicas distintas. Ecologia urbana é um conceito central baseado no pressuposto da existência de uma competição “impessoal” entre indivíduos pela sua localização em determinadas zonas das cidades (ecologia urbana). Relação com os mecanismos do mercado que resultam num modelo característico do valor do solo nas cidades que conduz consequentemente à segregação de diferentes tipos de pessoas cuja capacidade económica não lhes permite satisfazer rendas de habitação acima das suas possibilidades. A diferenciação económica pode ser um mecanismo de segregação residencial. Os conceitos de diferenciação residencial, de vizinhança, de invasão, de dominância e de sucessão em ecologia urbana. Explicação através dos modelos espaciais de utilização do uso do solo. O modelo das zonas concêntricas ou zonal, o modelo setorial e o modelo nuclear múltiplo explicativos da realidade (Anexo II). Qualquer dos modelos pode existir em heterogeneidade. O preço do uso do solo urbano condiciona as rendas da habitação “empurrando” as classes com poucos rendimentos a deslocarem-se para os subúrbios ou para zonas mais degradas das cidades em busca de rendas mais acessíveis.

Modelos de diferenciação socio-espacial

A morfogénese urbana é o processo que cria e remodela a forma física das cidades e que vai mudando ao longo dos anos. A par de habitações luxuosas observam-se habitações mais antigas e degradadas e bairros sociais com estéticas e arquitetura caraterísticas. Subáreas urbanas são construídas com níveis diferentes de qualidade e com estéticas diferentes que se irão deteriorando, enquanto outras vão sendo renovadas e atualizadas. Estão intimamente ligadas a uma dialética socio-espacial através de modelos e processos de investimento e desinvestimento e de segregação social.

  • Sugestão para aplicação prática e trabalho de campo

Selecionar para observação local, áreas, bairros ou subúrbios da cidade onde habita ou estuda, por exemplo Lisboa. Estabelecer comparações entre eles no que reporta à construção, tipo de edifícios, oferta de bens e serviços, formas e caraterísticas arquitetónicas, deterioração, áreas renovadas, modo de vida social e cultural dos seus habitantes. Como preparação prévia poderá recolher informação estatística demográfica sobre as áreas selecionadas. Produzir um relatório síntese sobre os espaços observados onde se levantem problemas e se proponham soluções para posterior discussão. 

 Bloco temático 9: Qualidade ambiental

Questão essencial: Como se relaciona a qualidade ambiental nas cidades com a ocupação social do espaço?

A insuficiência de condições ambientais no espaço público é determinante para que se possam estabelecer relações sociais. A qualidade ambiental no contexto urbano é subjetivo. As classes desfavorecidas e menos abastadas, com necessidade básica por satisfazer podem ser relativamente indiferentes aos vários aspetos da qualidade ambiental. As classes mais abastadas tendo satisfeitas as suas necessidades materiais são mais sensíveis aos fatores ambientais tais como a aparência estética e arquitetónica das habitações, das ruas e dos espaços verdes.

A perceção da qualidade ambiental na cidade e nos subúrbios está relacionada com problemas de tráfego (da periferia para o centro das cidades), limpeza e manutenção das ruas, paisagística urbana, atividades antissociais como o vandalismo, entre outros. A satisfação com a qualidade ambiental do bairro está inversamente proporcional à centralidade e à dimensão da cidade. Os baixos níveis de satisfação são função da presença do parque habitacional degradado, edifícios abandonados, crime, poluição, ruído ambiental, etc..

  • Sugestão para aplicação prática

            Observar alguns pontos de uma cidade sob o ponto de vista ambiental distinguindo e estabelecendo relações entre os diversos espaços habitacionais. Esta aplicação prática pode ser efetuada conjuntamente com a sugerida no Bloco temático 7.   

 Bloco temático 10: Distancia física distância social e diferenças de posição social ou status entre indivíduos e grupos

Questão essencial:  Que relação pode existir entre distância física e distância social em ambiente urbano?

Em ambiente urbano existe pouca ou nenhuma distância social entre pessoas com posição social semelhante ou idêntica, inversamente, a distância social revela ser maior entre pessoas com posições sociais diferentes, tendendo a aumentar à medida que essas diferenças aumentam. A distância física e a distância social estão estreitamente ligadas nas áreas urbanas. Pesquisas efetuadas sublinham que identidades pessoais são influenciadas por fatores tais como classe comunidade, trabalho e família. A questão da proximidade fundamenta a forma como os padrões residenciais são definidos com forte tendência para a diferenciação espacial em termos de classe, raça, etnicidade, estilo de vida, parentesco, estatuto familiar ou idade. A segregação residencial de grupos por ocupação profissional e a distância social entre eles são paralelos às categorias sociais mais segregadas ou excluídas, sendo os grupos de topo da escala socioeconómica os mais “segregados”. Também existe segregação ao nível das classes socioeconómicas de topo que se autoexcluem em relação às classe ais baixas. Estudos de grupos socioeconómicos e étnicos em várias cidades referem um grau muito significativo de segregação residencial.

  • Sugestão para aplicação prática e para trabalho de campo

Com o apoio de uma carta geográfica de Lisboa e periferia e com dados estatísticos obtidos em instituições públicas locais, localizar a existência, ou não, de áreas de segregação residencial por exclusão socioeconómica ou étnica. O trabalho no exterior poderá a ajudar a verificar “in loco” as hipóteses colocadas assim como a estrutura do tipo de construção.

Verificar a existência da tendência das instituições municipais para investimentos em infraestruturas e outros equipamentos sociais em áreas mais favorecidas, em prejuízo de outras áreas que são habitadas por populações com menos recursos.

 Bloco temático 11: Serviços municipais e desigualdade socio-espacial

Questão essencial: Que relação existe entre a existência de serviços de apoio social e os níveis de necessidade em cada área urbana?

A disparidade entre as relações de poder e de status (estatuto social), numa cidade social e fisicamente fragmentada, pode ser ilustrada pelos serviços sociais de apoio aos idosos. A distribuição geográfica ideal de apoios sociais deveria ser diretamente proporcional aos níveis de necessidade de cada área urbana, princípio denominado justiça territorial. Uma análise ao fornecimento de apoio domiciliário, refeições domiciliárias, apoios de enfermagem, habitação para idosos confronta-se com uma variação considerável ao nível da extensão alcançável pela justiça territorial. Os níveis locais/espaciais de necessidade de serviços sociais de apoio aos idosos podem ser avaliados através de índices das condições sociais baseados em variáveis como níveis de saúde, condições de habitabilidade, desemprego, estatuto socioeconómico, assim como a incidência de pensionistas a viver sozinhos. O fornecimento deste tipo de serviço social é função do esforço financeiro dos serviços de apoio locais, quer em extensão e proporção de pessoas apoiadas, (p.e. percentagem de idosos que recebem um serviço), quer em intensidade, avaliada em termos da quantidade média de recursos monetários ou materiais fornecidos ao beneficiário do serviço. A desigualdade é consequência da capacidade financeira dos serviços de apoio, do espaço gerido pelos serviços e da quantidade de beneficiários.

  • Sugestão para aplicação prática.

            Efetuar um levantamento das instituições privadas ou públicas de apoio numa determinada área (freguesias de Lisboa por exemplo) e dos tipos de apoio e quantidade de beneficiários.

 Bloco temático 12: Segregação e congregação

Questão essencial 1: Que grupos minoritário são segregados residencialmente nas cidades?

Questão essencial 2: Existem razões para a segregação numa sociedade?

A segregação espacial de diferentes comunidades ajuda a minimizar os conflitos entre grupos sociais, facilitando um maior grau de controlo social dotando grupos específicos de uma maior coesão. Os agrupamentos residenciais dos grupos sociais vão de encontro ao desejo de os seus membros preservarem a identidade e o estilo e vida do próprio grupo conduzindo à clausura social. A clausura social refere-se ao resultado da disputa de culturas ligadas ao processo de diferenciação espacial em que os vencedores dessa disputa são caraterizados por pressão exercida no sentido descendente, excluindo grupos mais fracos do espaço e dos recursos mais desejáveis, também denominada clausura excludente.

Segregação de grupos minoritários

Segregação refere-se a situações em que elementos de um grupo minoritário não se encontram distribuídos uniformemente num espaço residencial em relação à restante população. Grupo minoritário é qualquer grupo definido ou caracterizado pela raça, religião, nacionalidade ou cultura. Podem interpretar-se as consequências espaciais da segregação e agregação nos espaços residenciais de grupos minoritários através do processo de assimilação na sociedade de acolhimento. A sociedade de acolhimento pode não ser homogénea mas representa o grupo matriz da sociedade na qual os grupos minoritários estão inseridos. A aquisição pelos grupos minoritários de uma vida cultural comum ao grupo matriz traduz-se numa assimilação comportamental, em contraponto com a assimilação estrutural, baseada na difusão espacial dos elementos dos grupos minoritários através dos estratos sociais e ocupacionais do grupo social matriz.

Discriminação e efeitos de estrutura

O isolamento espacial de grupos minoritários é também efetuado pela discriminação no mercado da habitação, limitando assim grupos minoritários a pequenos nichos no tecido urbano. A natureza da localização dos alojamentos mais baratos, para venda ou aluguer, é um aspeto importante da estrutura urbana que tende a segregar grupos minoritários do resto da população canalizando-os para nichos de bairros sociais limitados. Devido à falta de competências e qualificações escolares os elementos de grupos minoritários tendem a concentrar-se em ocupações consideradas, para os grupos privilegiados, como pouco atrativas e associadas a baixos salários. A discriminação para a localização de grupos minoritários em bolsas de habitação de baixo custo (camarárias p. e.) é a sua posição na estrutura social e económica da sociedade.

  • Sugestões para aplicação prática.
  1. No contexto deste ponto reflitir sobre a problemática dos imigrantes conforme as suas origens no que respeita à habitação e modos de vida.
  2. Localizar numa cidade como Lisboa, áreas habitacionais ocupadas por classes trabalhadoras com baixos rendimentos. Pesquisar se existem etnias dominantes. Caraterizar o espaço e o modo de vida das pessoas. Poderá ser construído um inquérito por questionário para posterior aplicação, onde constem itens que permitam avaliar a situação social e a forma de vida dos que habitam esses locais para uma posterior intervenção em educação social.

Bloco temático 13: A construção social dos luges urbanos

Questão essencial:    Como se efetua a materialização do espaço através do lugar?

Lugar é uma das palavras mais utilizadas nas mais diversas circunstâncias podendo ter significados diferentes conforme os agrupamentos sociais. O termo lugar tem significados diretamente proporcionais ao grau com que, subjetivamente, as pessoas sentem esse lugar. Designações normalmente atribuídas ao lugar são, segundo os contextos, o meio, localidade, localização, subúrbio, região, território. Cidade, vila, aldeia, megalópole designam casos particulares de lugares. O lugar e a sua materialização no espaço efetua-se através de práticas que cruzam experiência, perceção e imaginação com acessibilidade e distanciamento, apropriação e uso do espaço, domínio, controle e produção. Uma matriz de cruzamento encontra-se desenvolvida no Anexo III adaptada a partir de Harvey (1992:220), e pode auxiliar na interpretação das relações sociais de classe, género, comunidade, etnia e raça em função do espaço.

 Bloco temático 14: Ambiente e comportamentos desviantes em meio urbano

Questão essencial: De que formas as cidades influenciam os comportamentos desviantes?

Estudo da relação entre alguns aspetos do comportamento das pessoas em função do espaço onde vivem. O caráter socio-ambien­tal dos estabelecimentos urbanos influencia o comportamento dos indivíduos e dos grupos. Os comportamentos desviantes relacionam-se com a configuração urbana. Num quadro determinista o espaço é causa destes comportamentos que conduz a um condicionamento ambiental. Um exemplo: condicionamento ambiental experimentado por crianças que crescem em certos locais de uma cidade estão na origem de indivíduos com uma natureza que apenas interage com os grupos de proximidade ficando mais preparados para interagir negativamente com outros ambientes circundantes diferentes, forçando o distanciamento social e a consequente delinquência.

Bloco temático 15:    Cidades e prostituição.

Questão essencial 1: De que formas as cidades são influenciadas e influenciam a sexualidade?

Questão essencial 2: Quais são as características da distribuição espacial da prostituição em contexto urbano?

 As cidades proporcionam oportunidades de transgredir os códigos morais vigentes. Uma importante manifestação disso é a prostituição se a considerarmos como uma concessão de favores sexuais em troca de uma recompensa monetária ou outras não monetárias[10]. Ela reflete uma relação patriarcal de género, isto é, desigualdades nas relações de poder entre homens e mulheres. Era encontrada em ambientes degradados ou bairros antigos do centro das cidades ocorrendo também a partir da segunda metade do século XX em outras zonas por vezes habitadas por classes sociais mais elevadas, por onde circulam automóveis e indivíduos que procuram serviços de prostituição. O desvio da prostituição Ao longos anos deslocalizou-se do centro de Lisboa para as zonas periféricas (subúrbios) e, em particular, junto das vias rodoviárias[11]. O alargamento do espaço e da área de influência da prostituição alterou-se devido à Internet assim como a uma nova distribuição espacial das casas de alterne. Alguns estudos justificam que a maior parte das mulheres são obrigadas por coação económica e que a prostituição da maior parte das mulheres é devida à “coerção”, mas a remuneração atrativa face a outro tipo de ocupações ou à sua falta, pode ser também um fator circunstancial. De salientar como fonte de estudo as instituição de intervenção, apoio e inserção às mulheres que se prostituem.

  • Sugestão para aplicação prática.

Pesquisar de instituições de apoio e inserção social. Localização e eficácia dessas instituições, áreas de influência, tipos de apoio oferecidos e resultados obtidos.

 

  1. Bibliografia de apoio para os blocos temáticos.

Ascher, François (1997).Métapolis. Oeiras: Celta Editora.

Beaujeu-garnier, J. (1980). Geografia Urbana. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Carter, Harold (1995). The Study of Urban Geography, 4ª ed..London: Arnold.

Carvalho, C. Alberto (2004). A contribuição do Conceito de Território para uma Gestão Socialmente Justa da Cidade, in  Boletim do Instituto de Saúde Qualidade de Vida nº 32, Abril 2004.

Claval, Paul (1981). La Logique des Villes. Paris: Litec.

Delfante, Charles (1997). A Grande História da Cidade. Lisboa: Instituto Piaget.

Hall, Tim (1998). Urban Geography. London: Routledge.

Pereira de Oliveira (1973). O Espaço Urbano do Porto. Condições Naturais e Desenvolvimento. Coimbra: Centro de Estudos Geográficos.

Salgueiro, Teresa Barata (1992). A Cidade em Portugal. Uma Geografia Urbana. Porto: Afrontamento.

Souza, Marcelo Lopes de (2003). ABC do Desenvolvimento Urbano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

 


Anexo I

Geografia Social 1.png

 

Fonte: CML-Câmara Municipal de Lisboa

 

ANEXO II

Geografia Social 2.png

 

Fonte: Center for Spatially Integrated Social Science. Esquema adaptado pelo autor.  

 

ANEXO III

Construção / representação do espaço através da matriz de  interação dialética entre experiência, perceção e imaginação

As dimensões do espaço

Relações

Acessibilidade e distância

Apropriação e utilização do espaço

Domínio e controlo do espaço

Produção do espaço

Práticas materiais

(Experiência)

Fluxos de bens, dinheiro, pessoas, mão-de- obra, informação, transporte e sistemas de comunicação, etc..

Utilização do solo e construção de ambientes, espaços sociais e outros espaços verdes, redes sociais de comunicação e de ajuda mutua.

Propriedade privada do solo, divisões administrativas do espaço, comunidades e bairros, zonas exclusivas e outras formas e controlo social como polícias e vigilância.

Criação de infraestruturas (transportes e comunicações, construção, demolições, organização de infraestruturas sociais.

Representações do espaço

(Perceção)

Medidas de distância social, psicológica e física, elaboração de mapas e plantas, teorias sobre a fricção/resistência à distância. Princípio do mínimo esforço social, áreas de influência e dos lugares centrais.

Espaço pessoal, mapas mentais da ocupação do espaço, representações simbólicas do espaço.

Espaços restritos e proibidos, comunidades, culturas regionais.

Novos sistemas de cartografia, representações visuais, novas arquiteturas.

Espaços de representação

(Imaginação)

Atração/repulsão, distancia/inércia vontade, acesso/negação, mensagens transmitidas pelo espaço (meio).

Intimidade, lar, espaços abertos, locais para entretenimento popular (avenidas, ruas, praças, mercados), anúncios, iconografias e grafitis.

Desconhecimento, espaços perigosos que originam medo, barreias simbólicas espaços de repressão.

Planificações utópicas, paisagens imaginárias, mitologias dos espaços e dos lugares.

 

 

Referência Bibliográficas

Arends, Richard, (1995). Aprender a Ensinar, Lisboa: MCGraw-Hill.

Ausubel, D., Novak, J. H. (1978). Educational Psychology: a cognitive view, Nova York: Rinehart e Winston. (FPCE: Cota:PD446).

Bourdieu, Pierre, (2007). A Distinção: crítica social do julgamento, Ed. Brasileira, Porto Alegre: Editora Zouk.

Bruner, Jerome, (1999). Para uma Teoria da Educação, Lisboa: Relógio  D’Água.

Carter,Harold, (1995). The Study of Urban Geography, London: Arnold Hodder.

Castells, Manuel, (1984). Problemas de Investigação em Sociologia Urbana, Lisboa: Presença.

Dias de Carvalho, Adalberto; Baptista, Isabel, (2004). Educação Social: Fundamentos e Estratégias, Porto: Porto Editora.

Exclusion and Integration in Comparison. London: Palgrave Macmillan.

Ferreira de Almeida, et all., (1994). Exclusão Social: factores e tipos de pobreza em Portugal, Oeiras: Celta Editora.

Giddens, Anthony, (2009). Sociologia, Lisboa: Gulbenkian.

Hall, E. (1986). A Dimensão Oculta, Lisboa: Relógio d’Água.

 Harvey, David, (1992). The Condition of  Postmodernity,  Blackwell Publishers, Oxford.

Horta, Ana Paula (2008). Que Cidadania? Etnicidade, Identidades Locais e Agenciamento na Periferia de Lisboa, VI Congresso Português de Sociologia de Lisboa, UNL-Faculdades de Ciências Sociais e Humanas. http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/541.pdf (em Setembro/2011).

Lopes, João Teixeira, (2005). Novas Questões de Sociologia Urbana. Lisboa: Edições Afrontamento.

Musterd, S., Murie, A, Kesteloot, C., (2006). Neighbourhoods of Poverty: Urban Social

Parr,  J.  B.  (2007).  Spatial  Definitions  of  the  City:  Four  perspectives.

Perez Serrano, Glória, (2004). Pedagogía Social, Educación Social: construcción científica e intervención práctica, Madrid: Narcea.

Perrenoud, Philippe, (2000). 10 Novas Competências para Ensinar, Porto Alegre: Artmed

Piaget, J., (1977). Psicologia da Inteligência. Rio de Janeiro: Zahar Editores 

Studies, 44(2), Sage Journals.

Trilla, J. (Coord.).(1997). Animación Sociocultural: Teorías, Programas y Ámbitos. Barcelona: Editorial Ariel.

 

NOTAS

[1] Por sair fora do âmbito deste artigo não se desenvolve este tema sobe ao qual existe vária literatura especializada.

[2] Conceito largamente utilizado por Bourdieu para distinguir estilos de vida urbana entre as diferentes classes sociais.

[3] Modelo de zonas concêntricas de Burgess, modelo setorial de Hoyt, modelo multinuclear de Harris e Ulman. Estes autores têm sido também citados por Castells (1987:150)

[4] Exemplo recente foi a implosão da Torre 5 do Bairro do Aleixo no Porto no dia 16 de dezembro de 2001 com vista privilegiada, onde se prevê nascerem novas habitações num bairro de luxo, que permitirá lucros avultados.

[5] Sobre este assunto c. f. Arendes (1995) p.80 e seguintes.

[6] Lugar ou posição que a pessoa ocupa na estrutura social.

[7] Alguma da bibliografia apresentada será de origem anglo-saxónica visto que sobre alguns os temas em questão não existem traduções em português.

[8] Para aprofundamento  c.f. Carter,Harold, (1995) p. 72.

[9] Sugere-se a utilização dos censos da população do Instituto Nacional de Estatística

[10] Por motivo de espaço neste trabalho não considerámos o desenvolvimento e outras manifestações de sexualidade relevantes no contexto urbano como, por exemplo, a homossexualidade. Contudo o docente, se assim o entender, pode incluir neste tema essa problemática. 

[11] Fonte: Diário de Notícias 8/12/2011 e Direção Central de Investigação Pesquisa e Análise da Informação - DCIPAI do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras –SEF.

De acordo com um estudo conduzido pela Direção Central de Investigação Pesquisa e Análise da Informação (DCIPAI) do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), esta redução – em 2006 tinham sido contabilizadas 198 e em 2011 eram no primeiro semestre apenas 176 – não significa que o fenómeno esteja a diminuir. Por um lado os inspetores do SEF identificaram um desvio da prostituição do centro de Lisboa para as zonas da periferia, em particular vias rodoviárias. Por outro lado, registam um aumento da prostituição “dentro de portas”, em casas de alterne, através de anúncios e com aliciamento pela “Internet”.

AUTOR: Manuel A Rodrigues

... Continua na Parte II

 

 

Geografia Social Urbana em contexto educativo: Parte I

Manuel_AR, 16.10.23

Knowledge = Power

Geografia Social Urbana em contexto educativo

Parte I

Nota inicial

Este texto da minha autoria foi publicado nos Cadernos de Investigação Aplicada das Edições Universitárias Lusófonas em 2011, 5, 105-145, com outro título. É aqui publicado após revisão e adaptação de modo a torná-lo mais abrangente no âmbito da Geografia Social Urbana e para deixar de ter a especificiadde em função do objetivo para o qual foi na altura direcionado.  

 

  1. Introdução.

Ao abordar a temática da Geografia Social Urbana quis, sobretudo, assinalar o interesse que têm as questões sociais em contexto urbano do ponto de vista geográfico. A formação dos cidadãos, a maior parte das vezes, transcende a educação formal prestada nas escolas. O poder político lança para dentro do sistema educativo problemas que estão fora das suas estruturas e competências.

A Geografia Social Urbana está presente em todos os contextos e espaços geográficos nos quais se desenvolve a vida do ser humano, com maior incidência nas cidades.  Está, portanto, ligada às circunstâncias sociais, políticas e culturais dominantes assim como ao modelo económico e de sociedade situados num espaço e num tempo precisos, pretende-se, então, propor uma reflexão que tenha como pano de fundo o interesse da Geografia Social Urbana no contexto social e local dos bairros e subúrbios desfavorecidos das grandes cidades.

Como a tendência tem sido o agravamento da crise das instituições sociais e de cidadania é, à escola, que se pede que substitua à família, até na educação religiosa que devia pertencer às igrejas. Se no seio da família não de educa então a escola que o faça. Os próprios encarregados de educação assim o pensam. Os sucessivos governos vêm pedindo às escolas tudo, acabando por ser uma instituição que acaba por não dar quase nada.

Parece-me haver uma lacuna no sistema de ensino no que se refere à disciplina de Geografia. A Geografia Social Urbana é uma área da Geografia que pode ajudar ao desenvolvimento de intervenções educativas em diferentes contextos sociais.

É nas grandes cidades que se encontram, pelos mais diversos fatores, os problemas sociais que necessitam de intervenção, pelo que a Geografia Social Urbana tende a ocupar-se também como objeto de estudo da variação e a distribuição no espaço urbano dos grupos sociais, isto é, das formas como se criam e estabelecem as relações, as identidades e as desigualdades, as causas e consequências da sua distribuição espacial, o que a distingue da sociologia. A cidade é um objeto de estudo multi e interdisciplinar, como tal, a pesquisa em estudos urbanos inclui o estudo nas áreas da segregação, do comportamento demográfico no tempo e no espaço, na história, nas culturas, na etnicidade, na economia urbana, nas instituições e nas redes sociais entre outros, sempre numa perspetiva de localização espacial. No seu domínio incluem-se ainda as relações entre ecologia e a economias globais e locais, guetos urbanos e suburbanos, áreas empobrecidas ligadas à desigualdade, segregação e exclusão social, contrastando com outras áreas urbanas. Estes ecossistemas urbanos que se irá referir mais adiante são frequentemente confrontados com diversas questões decorrentes das suas caraterísticas sociais, ambientais e económicas específicas.

Riqueza e pobreza coexistem dentro das cidades em estreita proximidade. Bairros ricos e bem localizados, com fácil acessibilidade, contrastam com espaços periurbanos e cidades-dormitórios densamente povoados. Numa perspetiva de pedagogia social torna-se essencial prestar atenção às cidades enquanto espaços geográficos habitados que é essencial para se aprender a viver em comunidade, pois é nelas que se encontram os grandes problemas sociais que devem ser objeto de intervenção da pedagogia social.

Investigações sobre as formas e as dinâmicas da exclusão social e da violência centram-se nas desigualdades dentro das comunidades e no papel dos bairros urbanos levantando questões importantes relacionadas com a diferença de oportunidades, normalmente associadas aos bairros e aos efeitos de vizinhança. Deste modo, os quadros de referência que se pretendem esboçar numa primeira parte do artigo orientam-se no sentido de mostrar a relevância que a Geografia Social Urbana que possa  ter na formação dos jovens.

Não foi pretensão enveredar por considerações e explicações muito desenvolvidas dos modelos teóricos socio-espaciais que apoiam os estudos em Geografia Social Urbana.

Sugerem-se temas da Geografia Social Urbana onde se apresentam tópicos e algumas sínteses nos casos em que poderia ser relevante para a compreensão desses tópicos que podem ser um esboço para um eventual programa de uma unidade curricular que possa contribuir para o enriquecimento sociogeográfico.

 

  1. Relevância da Geografia Social Urbana como área de estudo social multifacetado.

 

  • Conceitos, marcos teóricos e paradigmas: uma reflexão.

Uma intervenção social tem como objetivo a mediação entre o indivíduo, a família, as instituições e a sociedade em geral na orientação e na “resolução” de muitos problemas sociais das sociedades contemporâneas cujos objetivos fundamentais são o desenvolvimento da maturidade social; o promover as relações humanas e a preparação do indivíduo para a convivência na comunidade (Perez Serrano, 2004:129). Numa estreita ligação com a intervenção social a Geografia Social Urbana, estuda as dimensões socio-espaciais da vida da cidade, da sua dinâmica e da forma como a sociedade se organiza e distribui geograficamente nas cidades. De forma a dar respostas estuda também questões de significado contemporâneo como a segregação residencial, a expansão e desenvolvimento urbano, o bem-estar social, a construção urbana, o ambiente, as relações de classe e etnias relacionadas com as migrações que afetam e são afetadas pela paisagem urbana. 

Há orientações e objetivos de intervenção nos “espaços” onde as comunidades se inserem que são transversais a todos os domínios sociais: a confluência de diversas culturas em espaço urbanos; o exercício de funções e a aquisição de competências nos diversos espaços-tempos educativos que tenham como propósito promover o exercício dos direitos de cidadania; acompanhamento socioeducativo (no âmbito de situações de vulnerabilidade e/ou exclusão social); mediação cultural, social e educativa (no âmbito da relação, escola, família e comunidade local); intervenção nos domínios psicossociológicos através do desenvolvimento de ações de prevenção e de (re)inserção social e pessoal junto de populações em risco; desenvolver atividades em grupos que carecem de atenção especial, designadamente minorias étnicas, emigrantes e núcleos populacionais socialmente desfavorecidos; prestar apoio, individualizado ou coletivo de natureza técnica, que se verifiquem nos grupos relativamente a problemas específicos; acompanhamento socioeducativo no âmbito de situações de vulnerabilidade e/ou exclusão social. A mudança acelerada do espaço, impulsionada pelo desenvolvimento económico e a erosão da cidade pode criar uma identidadee poderá unir uma comunidade, unir vizinhos que não se falavam. A destruição de um bairro pode unir para proteger a cidade.

Se refletirmos sobre onde se exerce este tipo de intervenções facilmente verificamos que elas são, na sua maior parte, realizadas nos grandes centros urbanos em locais bem definidos por onde se dispersam populações em risco de exclusão social. A preocupação centra-se em grupos sociais e indivíduos isolados em situações de exclusão social dominante cujo conceito é polissémico e multidimensional e desempenha um papel importante na educação social, podendo ter origem em vários fatores e apresentar-se sob a forma de diversos tipos[1]. As exclusões toleradas, que vêm ao encontro às estudadas na Geografia Social Urbana, decorrem das “marginalizações por rejeição mais ou menos subtil que nos levam a identificar, por exemplo, zonas e bairros das cidades com determinados grupos étnicos, com certos estratos sociais, mais ou menos favorecidos, tidos como mais ou menos perigosos” que conduz a uma “exclusão geográfica” (Carvalho, 2004:27).

Relativamente ao espaço sociogeográfico urbano Bourdieu (2007:167) mostrou que existe uma homologia entre os espaços sociais e os espaços urbanos que se organizam em função da condição de classe e de condicionamentos de ordem social realizados por um conjunto de práticas de acordo com a estrutura do estilo de vida caraterístico de uma classe ou conjunto de classes que possuem diversas e múltiplas práticas realizadas em campos de lógicas diferentes. O espaço social é organizado por princípios de diferenciação económica e cultural que geram clivagens entre as classes sociais dominantes e dominadas que, do ponto de vista geográfico, vão gerar diferenciações na ocupação do espaço urbano visto que, cada sujeito organiza o espaço social urbano como se fosse um mapa mental que apresentasse uma panorâmica geral a partir de um conjunto de pontos ou referências, sobre os quais lança o seu olhar, percecionados em função de estilos de vida diferentes ou “habitus[2]. Os diferentes estilos de vida são caraterística das diferentes classes sociais que se revelam através dos gostos, da diferenciação cultural e respetivo consumo cultural e alimentar entre outros, determinados pelas condições económicas e sociais, contrapondo agregação a segregação.

Esta perspetiva já tinha sido desenvolvida por modelos teóricos em Geografia Social Urbana, nomeadamente os modelos da ecologia humana e do uso do solo urbano, desenvolvidos por Burgess, Hoyt, Harris e Ulman[3] que, por aproximação, vieram a ser recuperados para as teses sobre homologia entre espaços sociais urbanos. Estes modelos descrevem a estrutura residencial de uma cidade num dado tempo e verificam como processos ecológicos de caraterísticas sociopolíticas determinaram aquela estrutura conduzindo à exclusão em algumas áreas residenciais, reduzindo-as a comunidades geograficamente restritivas e segregadas. Algumas áreas urbanas foram, ao longo do tempo, sujeitas a um processo de segregação, de competição, de invasão e de sucessão considerado do ponto de vista das categorias sociais e étnicas. Nas grandes cidades há mecanismos sociopolíticos que selecionam os indivíduos que irão viver numa determinada região ou meio através dos preços de usos do solo urbano e das rendas (Giddens, 2009:573).

É frequente, zonas habitacionais degradadas serem substituídas por condomínios fechados destinados a grupos sociais de avultados rendimentos. Poderíamos representar uma cidade através de um mapa de áreas com características sociais distintas e contratantes entre si. Uma forma de afastar ou mesmo excluir determinados grupos sociais, por vezes indesejáveis, de determinados espaços dos centros urbanos, é colocá-los nesses espaços através de processos de gentrificação, isto é, a renovação ou destruição de edifícios em bairros degradados para construção de outros a serem ocupados por grupos de rendimentos mais elevados e para equipamentos de comércio e de apoio diversos destinando-se a tornar habitáveis e menos perigosas estas áreas[4].

Outro aspeto a ter em conta é a causa e a localização espacial dos conflitos urbanos que, no caso português, ocorrem nas principais capitais. Em situações de rápidas e grandes mudanças socioeconómicas agravadas pelas migrações as grandes cidades tornam-se expressões concentradas e intensificadas dos problemas sociais que afligem a sociedade no seu todo. Os conflitos urbanos podem surgir nos mais diversos pontos, embora ainda se encontrem localizados nas áreas de populações mais desfavorecidas. De entre os fatores que motivam estas tensões sociais e perda de coesão social podem ser a pobreza, a divisão e o antagonismo social e étnico, o crime e a insegurança que emergem destes fatores, sejam ou não os indivíduos afetados diretamente por eles. Estes fatores podem gerar conflitos motivados por problemas sociais não resolvidos, muitas das vezes surgem por desconhecimento de outras formas de resolução dos problemas e à falta de formação cívica e de cidadania.

O que tenho referido releva a importância dos conceitos sociogeográficos que podem confluir no terreno da formação em terreno da educação social e das suas dinâmicas socioculturais que podem desencadear efeitos incompatíveis com a realidade aquando da planificação de intervenções de âmbito social e da sua posterior operacionalização que, para além da reflexividade, criatividade, imaginação, adaptabilidade e dinamismo, apelam à competência e polivalência técnicas dos educadores sociais.  

 

Aquele que foi o ideólogo principal do Kremlin

Manuel_AR, 03.09.23

Putin-Sourkov ideólogo.jpg

 

O autor oculto do putinismo

Como Vladislav Surkov inventou a nova Rússia

Artigo publicado na revista The Atlantic  (tradução livre para português)

7 de novembro de 2014

"Sou o autor, ou um dos autores, do novo sistema russo", disse-nos Vladislav Surkov a título de introdução. Neste dia de primavera de 2013, ele vestia uma camisa branca e um blusão de couro que fazia parte da Joy Division e parte do comissário dos anos 1930. "A minha pasta no Kremlin e no governo incluiu ideologia, media, partidos políticos, religião, modernização, inovação, relações exteriores e...", aqui ele faz uma pausa e sorri, "arte moderna". Ofereceu-se para não fazer um discurso, em vez de receber os estudantes de doutoramento, professores, jornalistas e políticos reunidos num auditório da London School of Economics para fazer perguntas e ter uma discussão aberta. Após a primeira pergunta, falou por quase 45 minutos, deixando pouco tempo para perguntas.

É o seu sistema político em miniatura: retórica democrática e intenção antidemocrática.

Como ex-vice-chefe da administração presidencial, depois vice-primeiro-ministro e depois assistente do presidente nas relações exteriores, Surkov dirigiu a sociedade russa como um grande reality show. Ele bate palmas uma vez e surge um novo partido político. Bate palmas novamente e cria Nashi, o equivalente russo da Juventude Hitleriana, que são treinados para batalhas de rua com potenciais apoiantges pró-democracia e queimam livros de escritores antipatrióticos na Praça Vermelha. Como vice-chefe do governo, ele reunia-se uma vez por semana com os chefes dos canais de televisão no seu gabinete no Kremlin, instruindo-os sobre quem atacar e quem defender, quem é permitido na TV e quem é proibido, como o presidente deve ser apresentado e a própria linguagem e categorias em que o país pensa e se sente. Os apresentadores de TV russos Ostankino, instruídos por Surkov, arrancam um tema (oligarcas, América, Oriente Médio) e falam por 20 minutos, insinuando, cutucando, piscando, insinuando, embora raramente dizendo algo diretamente, repetindo palavras como "eles" e "o inimigo" infinitamente até que fiquem impressas na mente.

Repetem os grandes mantras da época: o presidente é o presidente da "estabilidade", a antítese da era da "confusão e crepúsculo" nos anos de 1990 quem se opunha ao presidente era inimigo do grande Deus da "estabilidade". "Gestor eficaz", termo extraído do discurso corporativo ocidental, é transmutado num termo para venerar o presidente como o "gestor mais eficaz" de todos. "Eficaz" torna-se a razão de ser de tudo: Estaline era um "gestor eficaz" que tinha que fazer sacrifícios para ser "eficaz". As palavras correm pelas ruas: "O nosso relacionamento não é eficaz", dizem os amantes uns aos outros quando terminam. "Eficaz", "estabilidade": Ninguém pode definir bem o que eles realmente significam, e à medida que a cidade se transforma e surge, todos sentem que as coisas são exatamente o oposto de estáveis, e certamente nada é "eficaz", mas a maneira como Surkov e os seus fantoches usam as palavras ganharam vida própria e agem como machados caindo sobre qualquer um que seja de alguma forma desleal.

Um dos muitos apelidos de Surkov é o "tecnólogo político de toda a Rus". Tecnólogos políticos são o novo nome russo para uma profissão muito antiga: viziers, cardeais cinzentos, bruxos de Oz. Eles surgiram pela primeira vez em meados da década de 1990, batendo às portas do poder como flautistas, curvando-se e oferecendo os seus serviços para explicar o mundo e sussurravam que poderiam reinventá-lo. Eles herdaram uma tradição muito soviética de governança de cima para baixo e práticas czaristas de cooptação de atores antiestatais (anarquistas no século XIX, neonazis e fanáticos religiosos agora), todos fundidos com o pensamento mais recente na televisão, publicidade e relações públicas obscuras. O seus primeiros clientes foram, na verdade, modernizadores russos: em 1996, os tecnólogos políticos, coordenados por Boris Berezovsky, o oligarca apelidado de "padrinho do Kremlin" e o homem que primeiro entendeu o poder da televisão na Rússia, conseguiram ganhar do então presidente Boris Yeltsin uma eleição aparentemente perdida, convencendo a nação de que ele era o único homem que poderia salvá-la de um retorno ao comunismo revanchista e ao novo fascismo. Eles produziram histórias de terror na TV de perseguidores  iminentes e conjuraram falsos partidos de extrema-direita, insinuando que o outro candidato era um estalinista (ele era na verdade mais um democrata socialista), para ajudar a criar a imagem de uma ameaça iminente "vermelho-castanho".

No século XXI, as técnicas dos tecnólogos políticos tornaram-se centralizadas e sistematizadas, coordenadas a partir do gabinete da administração presidencial, onde Surkov se sentava atrás de uma mesa com telefones com os nomes de todos os líderes partidários "independentes", ligando e dirigindo-os a qualquer momento, dia ou noite. O brilho desse novo tipo de autoritarismo é que, em vez de simplesmente oprimir a oposição, como acontecia com as estirpes do século XX, ele sobe dentro de todas as ideologias e movimentos, explorando-os e tornando-os absurdos. Num momento, Surkov financia fóruns cívicos e ONGs de direitos humanos, no outro apoia silenciosamente movimentos nacionalistas que acusam as ONGs de serem ferramentas do Ocidente. Patrocinou festivais de artes luxuosos para os artistas modernos mais provocadores de Moscovo, depois apoiou fundamentalistas ortodoxos, vestidos todos de preto e carregando cruzes, que, por sua vez atacaram as exposições de arte moderna. A ideia do Kremlin é ser dono de todas as formas de discurso político, não deixar que nenhum movimento independente se desenvolva fora dos seus muros. Sua Moscovo pode parecer uma oligarquia pela manhã e uma democracia à tarde, uma monarquia para jantar e um Estado totalitário na hora de dormir.

* * *

Surkov é mais do que apenas um operador político. Ele é um esteta que escreve ensaios sobre arte moderna, um aficionado por rap que mantém uma foto de Tupac na sua mesa ao lado da do presidente.

E é também o alegado autor de um romance, Quase Zero, publicado em 2008 e enformado pelas suas próprias experiências. "Alegado" porque o romance foi publicado sob o pseudônimo de Natan Dubovitsky; A esposa de Surkov chama-se Natalya Dubovitskaya. Oficialmente Surkov é o autor do prefácio, no qual ele nega ser o autor do romance, então faz questão de se contradizer: "O autor deste romance é um hacker obcecado por Hamlet não original"; "este é o melhor livro que já li." Em entrevistas, ele chega perto de admitir ser o autor, sempre recuando duma confissão completa. Independentemente de ele realmente ter escrito cada palavra, fez de tudo para se lhe associar. E é um best-seller a confissão chave da época, o mais próximo que podemos chegar a ver dentro da mente do sistema.

O romance é uma sátira da Rússia contemporânea, cujo herói, Egor, é um relações públicas corrupto feliz em servir a qualquer um que pague o aluguer. Ex-editor de poesia de vanguarda, compra textos de escritores clandestinos empobrecidos, depois vende os direitos para burocratas ricos e gangsteres com ambições artísticas, que os publicam com os seus próprios nomes. Todos estão à venda neste mundo; mesmo os jornalistas mais "liberais" têm o seu preço. O mundo das relações públicas e da publicação como o retratado no romance é perigoso. As editoras têm os seus próprios gangues, cujos membros atiram uns nos outros sobre os direitos de Nabokov e Pushkin, e os serviços secretos infiltram-se neles para os seus próprios fins obscuros. É exatamente o tipo de livro que os grupos de jovens de Surkov queimam na Praça Vermelha.

Nascido na Rússia provincial, filho de mãe solteira, Egor cresce como um hipster (o termo é associado a jovens adultos da classe média, que compartilham certos interesses ou valores em culturas alternativas, principalmente música independente, filmes e arte com a ideologia falsa da União Soviética). Na década de 1980, muda-se para Moscovo para passear à margem do cenário boémio; na década de 1990, torna-se guru de relações públicas. É um pano de fundo que tem muito em comum com o que conhecemos do próprio Surkov – ele só dá detalhes para a imprensa quando acha melhor. Nasceu em 1964, filho de mãe russa e pai checheno que partiu quando Surkov ainda era criança. Ex-colegas de escola lembram-se dele como alguém que tirava sarro dos animais de estimação do professor no Komsomol, usava calças de veludo, tinha cabelos compridos como os Pink Floyd, escrevia poesias e tinha sucesso entre as meninas. Era um aluno heterossexual cujas redações sobre literatura eram lidas em voz alta  na sala dos professores; Não era apenas aos seus próprios olhos que era inteligente demais para acreditar no cenário social e político ao seu redor.

"O poeta revolucionário Maiakóvski afirmava que a vida (após a revolução comunista) é boa e é bom estar vivo", escreveu o adolescente Surkov em linhas marcadamente subversivas a um aluno soviético. "No entanto, isso não impediu Maiakóvski de atirar em si mesmo vários anos depois."

Depois que se mudou para Moscovo, Surkov primeiro perseguiu e abandonou uma série de carreiras universitárias, de metalurgia a direção de teatro, em seguida, entrou um período no exército (onde poderá ter servido na espionagem militar), e envolveu-se em altercações violentas regulares (ele foi expulso da escola de teatro por lutar). A  sua primeira esposa foi uma artista famosa pela sua coleção de bonecos de teatro (que Surkov mais tarde construiria num museu). E à medida que Surkov amadureceu, a Rússia experimentou diferentes modelos a um ritmo vertiginoso: a estagnação soviética levou à perestroika, que levou ao colapso da União Soviética, à euforia liberal, ao desastre económico, à oligarquia e ao Estado mafioso. Como podemos acreditar em qualquer coisa quando tudo ao seu redor está muda tão rapidamente?

Foi atraído para o cenário boémio em Moscovo, onde os artistas performáticos estavam a começar a capturar a sensação de mutabilidade vertiginosa. Nenhuma festa estaria completa sem Oleg Kulik (que se passaria por um cão raivoso para mostrar a quebrantamento do homem pós-soviético), o alemão Vinogradov (que andaria nu na rua e despejaria água gelada sobre si mesmo) ou mais tarde Andrej Bartenjev (que se vestiria de alienígena para destacar o quão estranho era esse novo mundo). E, claro, Vladik Mamyshev-Monroe. Hiper-camp e sempre brincando com um repertório de poses, Vladik era um Warhol pós-soviético misturado com RuPaul. Primeiro artista drag da Rússia, ele começou se passando por Marilyn Monroe e Hitler ("os dois maiores símbolos do século 20", ele diria) e passou a retratar estrelas pop russas, Rasputin e Gorbachev como uma mulher indiana; ele apareceu em festas como Yeltsin, Tutancâmon ou Karl Lagerfeld. "Quando me apresento, por alguns segundos me torno meu sujeito", Vladik gostava de dizer. Suas imitações eram sempre obsessivamente precisas, empurrando seu sujeito ao extremo, onde a imagem da pessoa começava a se revelar e minar a si mesma.

O artista performático russo Oleg Kulik finge ser um cão enjaulado, uma alegoria para o homem pós-soviético (Reuters)

Ao mesmo tempo, a Rússia estava descobrindo a magia do RP e da publicidade, e Surkov encontrou seu métier. Ele recebeu sua chance do oligarca mais bonito da Rússia, Mikhail Khodorkovsky. Em 1992, ele lançou a primeira campanha publicitária de Khodorkovsky, na qual o oligarca, de paletó cheque, bigode e um sorriso enorme, era retratado segurando maços de dinheiro: "Junte-se ao meu banco se quiser dinheiro fácil" era a mensagem. "Eu consegui; você também pode!" O cartaz estava afixado em todos os ônibus e outdoors e, para uma população levantada sobre valores anticapitalistas, foi um choque. Foi a primeira vez que uma empresa russa usou o rosto de seu próprio dono como marca. Foi a primeira vez que a riqueza foi anunciada como uma virtude. Antes milionários podiam existir, mas sempre tinham que esconder seu sucesso. Surkov podia sentir que o mundo estava mudando.

Em seguida, Surkov trabalhou como chefe de relações públicas no Canal 1 de Ostankino, para o então grão-vizir da corte do Kremlin, Boris Berezovsky. Em 1999, ele se juntou ao Kremlin, criando a imagem do presidente assim como havia criado a de Khodorkovsky. Quando o presidente exilou Berezovsky e prendeu Khodorkovsky, Surkov ajudou a conduzir a campanha midiática, que apresentava uma nova imagem de Khodorkovsky: em vez do oligarca sorridente retratado distribuindo dinheiro, ele agora era sempre mostrado atrás das grades. A mensagem foi clara: você está a apenas uma foto de ir da capa da Forbes para uma cela de prisão.

E através de todas essas mudanças, Surkov trocou posições, mestres e ideologias sem parecer pular uma batida.

Vladislav Surkov e Vladimir Putin em 2006 (Sergei Karpukhin/Reuters)

Talvez as partes mais interessantes de Quase Zero ocorram quando o autor se afasta da sátira social para descrever o mundo interior de seu protagonista. Egor é descrito como um "Hamlet vulgar" que consegue enxergar através da superficialidade de sua idade, mas é incapaz de ter sentimentos genuínos por alguém ou qualquer coisa: "Seu eu estava trancado em poucas palavras... Lá fora estavam suas sombras, bonecos. Ele se via como quase autista, imitando o contato com o mundo exterior, conversando com os outros em falsas vozes para pescar o que precisava da miséria de Moscovo: livros, sexo, dinheiro, comida, poder e outras coisas úteis."

Egor é um manipulador, mas não um niilista; ele tem uma concepção muito clara do divino: "Egor podia ver claramente as alturas da Criação, onde em um abismo ofuscante frórica palavras não corpóreas, não pilotadas, sem caminho, seres livres, juntando-se, dividindo-se e fundindo-se para criar belos padrões."

As alturas da criação! O deus de Egor está além do bem e do mal, e Egor é seu companheiro privilegiado: inteligente demais para cuidar de qualquer um, muito próximo de Deus para precisar de moralidade. Ele vê o mundo como um espaço para projetar realidades diferentes. Surkov articula a filosofia subjacente da nova elite, uma geração de super-homens pós-soviéticos que são mais fortes, mais lúcidos, mais rápidos e mais flexíveis do que qualquer um que tenha vindo antes.

Quando trabalhei na televisão russa, me deparei com formas dessa atitude todos os dias. Os produtores que trabalharam nos canais Ostankino podem ser todos liberais em suas vidas privadas, passar férias na Toscana, e ser completamente europeus em seus gostos. Quando perguntei como eles casaram suas vidas profissional e pessoal, eles me olharam como se eu fosse um tolo e responderam: "Nos últimos 20 anos vivemos um comunismo em que nunca acreditamos, democracia e calotes e Estado mafioso e oligarquia, e percebemos que são ilusões, que tudo é RP".

"Tudo é RP" tornou-se a frase favorita da nova Rússia; meus pares de Moscovo estavam cheios de uma sensação de que eram cínicos e iluminados. Quando lhes perguntei sobre dissidentes da era soviética, como meus pais, que lutaram contra o comunismo, eles os consideraram sonhadores ingênuos e meu próprio apego ocidental a noções vagas como "direitos humanos" e "liberdade" como um erro. "Você não consegue ver que seus próprios governos são tão ruins quanto os nossos?", me perguntaram. Tentei protestar, mas eles apenas sorriram e me lamentaram. Acreditar em algo e apoiá-lo neste mundo é ridicularizado, a capacidade de ser um metamorfo celebrada.

Vladimir Nabokov uma vez descreveu uma espécie de borboleta que em um estágio inicial de seu desenvolvimento teve que aprender a mudar de cores para se esconder de predadores. Os predadores da borboleta haviam morrido há muito tempo, mas ainda assim ela mudou de cor a partir do puro prazer da transformação. Algo semelhante aconteceu com as elites russas: durante o período soviético, elas aprenderam a dissimular para sobreviver; Agora não há necessidade de mudar constantemente suas cores, mas eles continuam a fazê-lo por uma espécie de alegria sombria, conformismo elevado ao nível do ato estético.

O próprio Surkov é a expressão máxima dessa psicologia. Ao vê-lo discursar para os estudantes e jornalistas em Londres, ele parecia mudar e se transformar como mercúrio, de sorriso querubim a olhar demoníaco, de um liberal lânguido pregando "modernização" a um nacionalista abanando os dedos, cuspindo ideias deliberadamente contraditórias: "democracia administrada", "modernização conservadora". Em seguida, ele deu um passo para trás, sorrindo, e disse: "Precisamos de um novo partido político, e devemos ajudá-lo a acontecer, não há necessidade de esperar e fazê-lo se formar por si só". E quando você olha atentamente para os homens do partido no reality show político que Surkov dirige, os nacionalistas cuspidores e comunistas com cara de beterraba, você percebe como todos eles parecem desempenhar seus papéis com um pouco de brilho irônico.

Surkov gosta de invocar os novos textos pós-modernos recém-traduzidos para o russo, a quebra de grandes narrativas, a impossibilidade da verdade, como tudo é apenas "simulacro" e "simulacro"... e, no momento seguinte, diz como despreza o relativismo e ama o conservadorismo, antes de citar o "Sutra do Girassol", de Allen Ginsberg, em inglês e de cor. Se o Ocidente uma vez minou e ajudou a derrotar a URSS unindo economia de livre mercado, cultura fria e política democrática em um pacote (parlamentos, bancos de investimento e expressionismo abstrato fundidos para derrotar o Politburo, a economia planejada e o realismo social), a genialidade de Surkov foi separar essas associações, casar autoritarismo e arte moderna, usar a linguagem dos direitos e da representação para validar a tirania, recortar e colar o capitalismo democrático até que ele signifique o inverso de seu propósito original.

* * *

"Foi a primeira guerra não linear", escreve Surkov em um novo conto, "Sem Céu", publicado sob seu pseudônimo e ambientado em um futuro distópico após a "quinta guerra mundial":

Nas guerras primitivas dos séculos 19 e 20 era comum que apenas dois lados lutassem. Dois países. Dois grupos de aliados. Agora, quatro coalizões colidiram. Nem dois contra dois, nem três contra um. Não. Todos contra todos.

Não há menção a guerras santas na visão de Surkov, nenhum dos cabarés usados para provocar e provocar o Ocidente. Mas há uma visão sombria da globalização, em que, em vez de todos se levantarem juntos, a interconexão significa múltiplas disputas entre movimentos, corporações e cidades-estado – onde as velhas alianças, as UEs e as OTAN e o "Ocidente", se desgastaram, e onde o Kremlin pode jogar as novas e flutuantes linhas de lealdade e interesse, os fluxos de petróleo e dinheiro, separar a Europa da América, colocar uma empresa ocidental contra outra e contra ambos os seus governos para que ninguém saiba de quem são os interesses e para onde vão.

The Democracy Report

"Algumas províncias se juntariam a um lado", continua Surkov. "Alguns outros um diferente. Uma cidade, geração ou gênero se juntaria a outra. Então eles podiam mudar de lado, às vezes no meio da batalha. Seus objetivos eram bem diferentes. A maioria entendia a guerra como parte de um processo. Não necessariamente a sua parte mais importante."

O Kremlin muda as mensagens à vontade a seu favor, subindo dentro de tudo: nacionalistas de direita europeus são seduzidos com uma mensagem anti-UE; a extrema-esquerda é cooptada com histórias de luta contra a hegemonia dos EUA; Os conservadores religiosos dos EUA estão convencidos pela luta do Kremlin contra a homossexualidade. E o resultado é uma série de vozes, trabalhando em audiências globais de diferentes ângulos, produzindo uma câmara de eco cumulativa de apoio do Kremlin, tudo transmitido pela RT.

A vista de uma janela de avião de Moscovo à noite, com o Kremlin no centro (Alexander Demianchuk/Reuters)

"Without Sky" foi publicado em 12 de março de 2014. Poucos dias depois, a Rússia anexou a Crimeia. Surkov ajudou a organizar a anexação, com todo o seu teatro de Lobos da Noite, cossacos, referendos encenados, políticos fantoches roteirizados e homens com armas. Os novos aliados úteis do Kremlin, direita, esquerda e religiosos, apoiaram o presidente. Não houve sanções do Ocidente que pudessem ameaçar os laços econômicos com a Rússia. Apenas alguns altos funcionários, incluindo Surkov, foram proibidos de viajar ou investir nos Estados Unidos e na União Europeia.

"Essa proibição não vai afetá-lo?", perguntou um repórter a Surkov enquanto ele passava pelo Palácio do Kremlin. "Seus gostos apontam para que você seja uma pessoa muito ocidental." Surkov sorriu e apontou para a cabeça: "Posso encaixar a Europa aqui". Mais tarde, ele anunciou: "Vejo a decisão do governo em Washington como um reconhecimento do meu serviço à Rússia. É uma grande honra para mim. Não tenho contas no exterior. As únicas coisas que me interessam nos EUA são Tupac Shakur, Allen Ginsberg e Jackson Pollock. Não preciso de visto para ter acesso ao trabalho deles. Não perco nada."


Este artigo foi adaptado do livro de Peter Pomerantsev, Nothing Is True and Everything Is Possible, e baseia-se no seu trabalho para a London Review of Books.

 

A invasão da Ucrânia de Trump a Putin I

Manuel_AR, 02.09.23

A invasão da Ucrânia de Trump a Putin: contributos para uma teoria da conspiração

Curioso é analisarmos que Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021. Cerca de um ano e um mês depois de Trump ter saído da cena da presidência Putin invade a Ucrânia. Isto diz-nos alguma coisa

  1. Introdução.

As circunstâncias criadas pelos atores da política internacional levam-nos por vezes a aventurar-nos em terrenos imprevisíveis da paisagem política em permanente mudança de velocidade e de factos. Ao tentarmos fazer uma interpretação política de factos políticos sem sermos especialistas, vemos que há acontecimentos comprovados que nos levam a estabelecer interpretações e paralelismos por vezes arrojados.

Em política, interpretações e paralelismos não são isentos de ideologias que determinam o contexto do exercício do poder e as abordagens socioeconómicas que fazem parte de ideias e de interesses que ajudam a compreender a criatividade estratégica das ações e, muitas vezes, as obsessões dos atores políticos.

As intenções do Presidente Vladimir Putin em relação à invasão da Ucrânia estão naquele âmbito, já que as suas potenciais intenções/obsessões, se forem concretizadas, não ficarão no domínio do impossível, o avanço pelos países limítrofes, a começar pela Polónia, poderão ser inevitáveis.

A queda da URSS e a dissolução do Pacto de Varsóvia em 1 de julho de 1991, acordo militar firmado em 14 de maio de 1955, estabelecia uma aliança entre os países socialistas do leste europeu e pôs fim à aliança militar de que faziam parte a Hungria, Roménia, Alemanha Oriental, Albânia, Bulgária, Checoslováquia e Polónia e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

O fim daquele acordo resultou num abrandamento das precauções pelo ocidente, União Europeia e EUA, e a entrada uma espécie de torpor da NATO. Oito anos passados, de 1999 em diante, é que novos países passaram a fazer parte daquela organização alguns deles República Checa (1999), Hungria (1999), Polónia (1999), Bulgária (2004), Eslováquia (2004), Eslovénia (2004),, Estónia (2004) Letónia (2004), Lituânia (2004,) Roménia (2004), Albânia (2009), Croácia (2009), Montenegro (2017), Macedónia do Norte (2020). 

No poder da Federação Russa Vladimir Putin é um produto da sociedade da ex-URSS e, como tal, foi “formatado” nesse regime. Porém, tendo em vista que a queda do regime possibilitou a apropriação das riquezas das empresas estatais entretanto privatizadas, e que Putin e outros atuais oligarcas não ficaram “distraídos”, talvez um regresso exatamente ao antigo regime possa não lhe interessar, mas em termos de política os métodos totalitários de governação poderão ser os mesmos.

O embate ideológico entre o capitalismo ocidental e o imperialismo soviético, génese da Guerra Fria antes do seu desmembramento, parece ter renascido com o imperialismo russo renovado, que, afinal, esteve apenas latente. Contudo, o que para aqui interessa não é o embate ideológico entre o capitalismo ocidental e o antigo regime soviético, é o confronto provocado por razões menos ideológicas e mais de domínio geoestratégico. Antes, durante e depois da presidência de Donald Trump parece existir uma teoria da conspiração em que dois implicados estarão envolvidos.

As teorias da conspiração são uma explicação de um evento ou situação que invoca uma conspiração de atores com poder, políticos com motivações pessoais e hegemónicas que se apresentam como prováveis.

O ocidente, nomeadamente a U.E. e, sobretudo, os EUA, têm sido acusados de imperialistas por forças da esquerda radical e por apoiantes das políticas de Vladimir Putin. O conceito de imperialismo que aqui referimos consiste numa expansão violenta da área territorial da influência ou poder direto por parte dos Estados ou de sistemas políticos análogos e também formas de exploração económica em prejuízo de outros Estados ou povos (neste caso próximo do colonialismo). O conceito mais atual define que o imperialismo não é mais do que um resultado inevitável da tentativa de países ricos em manterem as suas posições de poder no equilíbrio geoestratégico e económico do mundo.

O imperialismo é também, segundo afirmam alguns líderes, um meio para libertar os povos do domínio tirânico ou de lhes trazer segurança, a que se junta o impulso pelo poder e prestígio com a criação no povo de emoções nacionalistas, como tem sido o imperialismo de Putin.

Durante o período da União Soviética (ex-URSS) e quando da invasão da antiga Checoslováquia (hoje República Checa e República Eslovaca) tornou-se mais difícil, mesmo para marxistas não dependentes da ideologia oficial do regime soviético, negar a existência de aspetos imperialistas na política externa da então URSS, quer sob o aspeto da imposição pela força da sua vontade aos Estados satélites, quer sob o da sua exploração económica. Se a URSS não tivesse desabado e autodestruído não saberíamos em que ponto se encontraria hoje o seu imperialismo e o estado da Guerra Fria.

A invasão da Ucrânia trouxe para a luz dos ecrãs de televisão, nomeadamente em Portugal, comentadores e outros que se encontravam no anonimato e que surgem a convite dos canais que tentam impor-nos com argumentos falaciosos e adulterados os seus desvarios, quer os que defendem doentiamente Putin e são anti ocidente, quer os que defendem veementemente o ocidente e a sua prevenção defensiva contra o imperialismo russo.

A Ucrânia é um país cujas fronteiras foram reconhecidas por Moscovo aquando do colapso da União Soviética e é por isso que os seus aliados ocidentais afirmam que Putin não tem justificação para o que diz ser uma apropriação de terras que lhe pertencia ao velho estilo imperial. O conflito na Ucrânia começou em 2014 após o então Presidente ucraniano pró-russo ter sido derrubado com a Revolução Maidan e a Rússia ter anexado a Crimeia. A luta foi desencadeada entre as forças apoiadas pela Rússia e os soldados ucranianos no leste da Ucrânia

Os que na atualidade apresentam argumentos, alguns do tempo da Guerra Fria, contra o ocidente e a NATO estão, de algum modo, a colocar-se ao lado da política de Putin em relação à Ucrânia mesmo que o neguem e que ao mesmo tempo reclamam pela paz e pelo fim da guerra. Mas, mais do que isso, estão, ao mesmo tempo, a concordar com os pontos de vista que Donald Trump tem mostrado.

Curioso é analisarmos que Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021. Cerca de um ano e um mês depois de Trump ter saído da cena da presidência, Putin invade a Ucrânia. Isto pode querer dizer alguma coisa e pode até conduzir a uma teoria da conspiração sobre dois relevantes atores da política internacional mostrados pelas atuações e declarações que se vêm ajustando desde há uma década atrás.

 

  1. Vladimir Putin o primeiro ator da conspiração

O filme Katyn do realizador polaco Andrzej Wajda, proposto para os Óscares de 2008, motivou-me para a escrita deste texto. Neste filme que deve ser visto ou revisto a cena mais impressionante passa-se em 17 de setembro de 1939, dia da invasão soviética da Polónia que os alemães já tinham também invadido duas semanas e meia antes.

A cena passa-se numa ponte, que é uma representação visual do que aconteceu em 1939 em todo o país, quando a Polónia foi apanhada entre dois exércitos invasores, o alemão e o soviético, cujos ditadores haviam concordado em conjunto eliminar a Polónia do mapa.

Na cena de abertura do filme uma multidão de pessoas ansiosas e desesperadas, umas a pé, outras de bicicleta, levando cavalos, carregando caixas, caminha por uma ponte. Para sua surpresa veem outro grupo de pessoas ansiosas e desesperadas vindo na sua direção, mas a caminhar na direção oposta. “Gente, o que estão a fazer?”, grita um homem. O diálogo é mais ou menos este: “Voltem! Os alemães vêm atrás de nós!”. Mas do outro lado, outra pessoa grita: “Os soviéticos atacaram-nos!”, mas ambos os lados continuam o seu caminho, seguindo a confusão geral. Um grande número de soldados polacos, (que também são pais, maridos e irmãos) cai nas mãos das tropas soviéticas e mais tarde tornam-se brutalmente vítimas do estalinismo.

A invasão da Ucrânia tem suscitado publicações de vários “posts” nas redes sociais e noutros locais textos em que se fazem analogias com as invasões e ocupações desencadeadas por Hitler, mas poucas têm sido feitas sobre Estaline.

Ao mesmo tempo que a agressão do presidente russo Vladimir Putin avança na Ucrânia e o seu regime limita com dureza a oposição interna, a alegação de que a Rússia está a voltar ao estalinismo encontra-se, quase diariamente, nos órgãos de comunicação tanto na Europa como nos Estados Unidos.

Para melhor compreensão da leitura deste rascunho e porque a informação factual tem que ser analisada e contextualizada, uma breve incursão ao passado no tempo da II Guerra poderá ser útil.

Reportemo-nos como exemplo a um caso do passado, agosto de 1939, quando a Rússia e a Alemanha assinaram um tratado de não-agressão (pacto Molotov-Ribbentrop - Ministros das Relações Exteriores) em que a Alemanha e a União Soviética concordaram em concluir um pacto de não-agressão. Um protocolo secreto deste tratado foi encontrado nos arquivos nazis no pós-guerra, embora a União Soviética o tenha negado durante décadas que ele tenha existido.

Vladimir Putin quando se refere às comemorações do “Dia da Vitória”, a que chama data que marca o triunfo dos soviéticos em 1945 sobre a Alemanha nazi, omite, por conveniência, que Hitler e Estaline estabeleceram e assinaram em 1939, um pacto de não agressão em que se comprometiam a não se atacar uma à outra e a manterem-se neutras se uma delas fosse atacada por uma terceira potência.

Mas o que Hitler e Estaline pretendiam não era apenas um compromisso de não apoiar os inimigos um do outro, havia um protocolo com pontos não divulgados em que os dois ditadores combinaram uma divisão da Polónia e da Finlândia, e os países bálticos, Lituânia, Letónia e Estónia. Todos estes passaram a integrar a URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas de 1940 a 1991 data em que conquistaram as suas independências assim como uma região entre a Moldávia e a Roménia que foram prometidos à União Soviética. Assim, o chamado Pacto Hitler-Estaline não consistia apenas na parte formal e oficial em que os dois ditadores acordaram, tinha outros acordos não divulgados.

Os ditadores são por norma falsos não apenas para com os seus povos, mas também entre eles. Assim, da parte de Adolfo Hitler, o pacto não foi mais do que o propósito de ganhar tempo para os seus planos de guerra e, no final de 1940, avançou com a campanha contra a União Soviética e a 22 de junho de 1941 as tropas nazis atacaram de surpresa o território soviético.

O pacto entre os dois ditadores sanguinários de regimes completamente antagónicos possibilitava aos dois a conquista de territórios e a execução de políticas totalitárias é uma nódoa na história donde se depreende que a traição e a mentira são umas das suas características.

Em pleno século XXI Vladimir Putin talvez inspirado pelos dois mais cruéis ditadores do século XX viola a paz na Europa seguindo estratégias idênticas às de Hitler em relação à política externa e de Estaline na política interna. Putin aproxima-se cada vez mais dum regime próximo do estalinismo, de um regime político totalitário-autocrático e oligárquico cujas principais características são o nacionalismo, a centralização política, o militarismo e a censura dos meios de comunicação.

Sabemos da propensão que os ditadores têm para sujeitar os órgãos de comunicação a censuras, proibição de publicações e para limitar ou perseguir o livre exercício do jornalismo, que é devido ao facto de poderem ficar livres para ocultar a verdade e divulgar as suas mentiras e notícias falsas através de canais informativos leais que controlam e cuja informação, diria antes desinformação, fazem propagar no interior e para o exterior.

Os discursos de Vladimir Putin e as suas intervenções não escondem o objetivo da sua política internacional para reconquista das antigas zonas de influência que a ex-União Soviética perdeu depois da Guerra Fria. É toda uma política revisionista, uma tentativa de regresso ao passado e cujo pensamento da política interna vai-se aproximando de uma espécie de antigo regime soviético modernizado.

Numa situação de conflito armado e para a sua explicação e concretização, cada lado fabrica as mentiras adequadas aos seus intentos, criando bodes expiatórios. Recorde-se como foi o caso com Hitler com os judeus na Alemanha e de Estaline que, após ter assumido plenos poderes, não hesitou em ordenar a execução de milhares dos seus antigos companheiros e também da elite intelectual judaica do país. Para ambos os ditadores era sobre esses que lançavam a causa de todos os males numa espécie de culpa coletiva.

As operações chamadas “bandeira falsa” que usam artimanhas e mentiras com o objetivo de proceder ao envolvimento de falsos soldados do lado oposto, que vestem uniformes do agredido, que lançam ataques orquestrados a instalações ou civis convocando posteriormente órgãos de comunicação para mostrarem   edifícios destruídos e cadáveres que, na verdade, pertencem a prisioneiros, assassinados especialmente para a ocasião. Este tipo de “crime”, juntamente com alguns outros “ataques”, que compõem a desculpa formal para invasões foi o que serviu a Hitler como desculpa formal para a invasão da Polónia.  Um dos exemplos foi o da propagada nazi que fez passar a informação de que a Alemanha estava sob ataque criando uma perceção de medo nos cidadãos alemães de um ataque polaco contra a Alemanha. Na realidade, os nazis encenaram o incidente para criar uma campanha de propaganda que favoreceria um ataque alemão contra a Polónia (foi a montagem de uma operação do tipo bandeira falsa).

A propaganda nazi de Hitler descreveu a invasão da Polónia como um conflito defensivo travado pela “libertação” da zona habitada principalmente por alemães étnicos de minoria alemã no oeste da Polónia, Cidade Livre de Gdansk/Danzig. Antes da invasão a Alemanha organizou algumas provocações cujo objetivo era justificar a invasão. No dia 1 de setembro de 1939 a Alemanha invadiu a Polónia. Para o justificar a propaganda nazi alegou falsamente que a Polónia planeava com os seus aliados cercar a Alemanha, e que os polacos perseguiam pessoas de etnia alemã no seu país. Foi então forjado, em conluio com os militares alemães, um falso ataque polaco a uma estação de rádio alemã. Hitler utilizou esta pretensa ação para lançar uma campanha de “retaliação” contra a Polónia. 

A 17 de setembro de 1939 os soviéticos avançaram sobre a Polónia alegando que era “uma campanha de libertação”, e que Moscovo não podia permitir que a Polónia caísse completamente nas mãos dos nazis, o que os factos do protocolo secretos atrás referido que também pode ver aqui desmentem.

Sem declaração de guerra a Polónia foi ocupada pelo exército de invasão alemã. A invasão soviética da Polónia nunca foi reconhecida como sendo uma invasão. Para a União Soviética a mensagem que passava e a retórica oficial era a do costume e que Putin reproduziu para a invasão da Ucrânia. Na altura era o Exército Vermelho que estendia a mão da assistência fraternal aos trabalhadores da Ucrânia Ocidental e da Bielorrússia Ocidental libertando-os para sempre da escravidão social e nacional, diziam, agora é Putin que diz querer libertar a Ucrânia dos nazis.  A União Soviética nunca admitiu ter conquistado ou anexado o território polaco: estas terras permaneceram parte da URSS após a guerra e ainda fazem parte da atual Bielorrússia e a Ucrânia hoje, depois da Segunda Guerra Mundial, foi internacionalmente reconhecida como estado independente com os seus próprios direitos. A República Socialista Soviética de Ucrânia foi dos 50 estados fundadores da ONU - Organização das Nações Unidas que aderiu em junho 1945 no final da Segunda Guerra Mundial. O nome atual do estado sucessor é Ucrânia.

O derrube da União Soviética que trouxe também a esperança do fim da Guerra Fria não foi olhado por todos da mesma forma, para uns terá sido uma catástrofe, como Putin afirmou recentemente, para outros traria a Rússia para o lado do “bem”, do Ocidente.

Durante a Guerra Fria olhava-se para a política como uma disputa pelo poder, e para a geopolítica como a disputa entre os Estados mais poderosos a competirem pela supremacia global. A Guerra Fria era um confronto entre a URSS e EUA, entre Washington e Moscovo/Kremlin, como os comentadores lhe costumam chamar. No entanto, a Guerra Fria também se disputou no campo de batalha das crenças, nos valores e direitos humanos universais em que o Ocidente acreditava e acredita. Faz sentido afirmar que o foi também ideologicamente entre o liberalismo económico e os radicais do pensamento marxista-leninista.

Olhando hoje para o que se passa na Rússia de Putin é fácil estabelecer uma analogia entre a invasão da Ucrânia e o que se passou no passado com a Polónia porque, segundo ele, é também para libertar o povo ucraniano dos nazis. A perceção que se tem é que Putin parece ter mimetizado a invasão alemã da Polónia, uma espécie de cartilha de Hitler quando pretendia travar uma guerra o que se tornaria na estratégia “blitzkrieg” (Guerra relâmpago, com exército e bombardeamentos contra a defesa do oponente e cercar as suas forças). Talvez, por isso, Putin tenha insistido naquilo ao que chamou “operação militar especial”.

É estranha a obsessão de Vladimir Putin com a justificação da sua guerra de agressão com a “desnazificação” da Ucrânia como ele propagandeia. Segundo o jornal Der Spiegel (maio de 2022), inúmeros neonazis estão a combater pela Rússia na Ucrânia e um documento interno do BND (serviço de inteligência exterior da Alemanha) revela agora que as tropas de Moscovo estão a ser apoiadas por grupos extremistas de direita. A propaganda oficial do Kremlin afirma que quer combater os neonazis da Ucrânia, o facto é que, também entre as tropas da Rússia, há militantes do neonazismo e da extrema-direita.

Centremo-nos agora há dois anos atrás, setembro de 2020, quando o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que condenou e colocou em pé de igualdade os dois totalitarismos, Hitler na Alemanha e Estaline na URSS, por terem cometido “genocídios e deportações” e perseguições políticas e destruído grande parte da Europa no século XX.

À semelhança de Hitler que pretendia vingar a humilhação da derrota sofrida na I Guerra Mundial e ancorado na crença de uma suposta superioridade da raça ariana e também criando um crescente clima de ódio contra os judeus, que dizia serem inimigos do povo alemão e a outros falsos pretextos, desencadeou violentas invasões a países soberanos europeus, Putin também forjou os seus fundamentos e pretextos para justificar os ataques a um país soberano.

Putin, no início da segunda década do século XXI, utiliza como justificação para ocupar a Ucrânia, a desnazificação, a que agora chama desucranização, e outras expressões que lhe sirvam para os seus objetivos de propaganda. Estas são as causas próximas que Putin forjou para justificar a invasão, mas há causas anteriores de raiz ideológica e filosófica que o inspiraram para além das desvairadas comparações que faz de si próprio com o czar Pedro, o Grande, recordando a Grande Guerra do Norte e as batalhas de Pedro contra os suecos.

Tornar a Rússia grande novamente tornou-se numa nova crença ideologica para Putin. Ele ganhou um quarto mandato em 2018 e logo a propaganda do Kremlin começou a espalhar a ideia de que Putin é o único que pode restaurar a grandeza da antiga Rússia e de que ele é o líder histórico capaz de se unir a fervorosos defensores da primitiva União Soviética, os quais ainda se reveem nesse período. A tomada de posse de Vladimir Putin no Kremlin aconteceu dois dias depois da polícia ter reprimido manifestantes que saíram às ruas para gritar “Putin não é o nosso czar”. Cerca de mil manifestantes foram detidos, entre eles o atual líder mais conhecido da oposição russa, Alexei Navalny que sofreu uma tentativa de assassinato.

  1. Pensar como Putin. O discurso do ódio

O discurso de ódio não é recente nem nasceu com as redes sociais, embora estas o tenham potenciado. Neste contexto o conceito de discurso de ódio que adotei é o de Parekh (2012) que é tudo quanto “expressa, encoraja, atiça ou incita ódio contra um grupo de indivíduos distinguidos por uma característica particular ou conjunto de características como raça, etnia, género, religião, nacionalidade e orientação sexual, utilizando frequentemente uma linguagem ofensiva, raivosa, abusiva e insultuosa”. Outros autores acrescentam que também existe discurso de ódio quando se pretende desumanizar, assediar, intimidar, rebaixar, degradar, vitimizar ou incitar a brutalidade contra grupos-alvo.  Este tipo de discurso agravou-se com a utilização online sobretudo nas redes sociais onde é instantâneo, rapidamente disperso e muitas vezes anónimo.

O discurso de ódio tem as suas propriedades como a quem se dirige, o que comunica e por onde se difunde. Assim, as pessoas ou grupos são atingidas pelo que são, e não pelo que pensam. Durante o nazismo foi esta forma de pensamento que levou os judeus a serem sujeitos a perseguições, indiferentemente do que pensavam politicamente, a que se associavam discursos de   incitação à violência política. Há porém uma diferença entre  os discursos de ódio e aqueles que se baseiam em antagonismo, ou seja, em  posições político-partidárias.

A incitação à violência política tem origem em disposições no cenário político, os discursos de ódio têm origem na discriminação sistemática. A troca de ideias passa então a ser marcada pela grosseria política, ou seja, insultos, ameaças, etc. (ver em Stryker, 2016).

Como vários autores têm observado o discurso de ódio também é empregue para perseguir, insultar e justificar a privação dos direitos humanos podendo, em casos extremos, conduzir a homicídios e genocídios cujos exemplos mais conhecidos foram o holocausto na Alemanha nazi; o ditador Estaline quando exigiu que alemães que morassem em territórios na altura recém dominados pela União Soviética (antes controlados por Hitler) voltassem para seu país de origem e em que no trajeto, famílias inteiras foram agredidas ou assassinadas; quando em 1971 a parte leste do Paquistão entrou em guerra para se tornar um Estado independente, Bangladesh, o governo paquistanês reagiu de modo radical, matando separatistas e seguidores; quando Estaline o tirano russo adotou técnicas variadas para perseguir rivais políticos entre 1932 e 1933 forçou a Ucrânia e o Cazaquistão a exportar todos os seus alimentos, matando os nativos de fome.

Os atributos de Hitler e de outros ditadores estão a ressurgir numa extrema-direita renovada, nacionalista, autoritária, autocrática que aproveita as redes sociais e os meios da internet que os seus congéneres do passado não tinham para difusão das suas ideias.

Em julho de 2021 Putin assinou e fez publicar no site oficial do Kremlin o artigo “Sobre a unidade histórica dos russos e ucranianos“. Neste artigo Putin tenta escrever uma “nova história” dizendo que grande parte da Ucrânia é roubada da terra da “Rússia Histórica”, que a nação ucraniana é uma ideia artificial e os ucranianos são basicamente russos de lavagem cerebral porque a Ucrânia é liderada por “radicais e neonazis” que são “instrumentos” do Ocidente, EUA, NATO e EU.

As palavras de ordem “nazi” e “neonazi” aparecem em cinco partes diferentes do texto de Putin com o objetivo de fazer reviver com uma única palavra, todo o mal que essa palavra comporta numa tentativa de desumanizar os ucranianos desde a revolução de Maidan em 2013.

O artigo de Putin antes da invasão da Ucrânia foi uma espécie de discurso à nação e foi distribuído aos soldados do exército russo no que pareceu ser uma versão moderna da “educação” política dos soldados semelhante à do antigo exército soviético. Estratégia que Estaline também adotava.

Já no decorrer da guerra em junho do corrente ano Dmitry Medvedev presidente russo entre 2008 e 2012, primeiro-ministro em 2012, e, atualmente, vice-presidente do Conselho de Segurança russo, escreveu no Telegram uma mensagem onde disse sobre os ucranianos que: “Eles são bastardos que querem a morte para a Rússia. Eu odeio-os e farei de tudo para fazê-los desaparecer”, repetindo o que o ideólogo Aleksandr Dugin disse em 2015, como adiante irei referir.

Palavras de ódio dirigidas a uma nação, tal como Hitler fez com os judeus, Medvedev utiliza palavras como  “desaparecer / deixar de existir / odiá-los”, é uma grande luz verde para os soldados irem em frente com toda e qualquer ação que possamos imaginar.

Ou seja, é o discurso de ódio onde se exige a destruição e liquidação de todos os “nazis” que, para ele, são todos os ucranianos, pelo que reclama uma supressão massiva e imediata de todo esse povo. Além da censura a qualquer voz ucraniana, e da introdução das leis e da cultura russas, o objetivo é proibir até mesmo o nome Ucrânia e o próprio termo ucraniano. Tudo indicando o objetivo de fazer desaparecer a Ucrânia como nunca tivesse existido.

Ao tentar perceber e conhecer o pensamento de Vladimir Putin deparei-me com o seu interesse por autores que o influenciaram, essencialmente Alexander Dungin e o seu livro “The Fourth Political Theory”.

Para Dugin os sistemas políticos têm sido produto de três ideologias, sendo a mais antiga a democracia liberal, seguida do marxismo e o terceiro o fascismo tendo estes dois últimos falhado. O primeiro que ele diz não ter resultado, mas que tem sido aceite como sendo o mais correto. Dugin afirma que “Hoje o mundo encontra-se à beira de uma realidade pós-política em que os valores do liberalismo estão tão profundamente incorporados que a pessoa comum não está ciente de que ao seu redor há uma ideologia em jogo”(The Fourth Political Theory, cap.1- The Three Main Ideologies and their Fate in the Twentieth Centuty, pp. 15-16).

Na perspetiva de extrema-direita iliberal de Aleksandr Dugin o liberalismo monopoliza o discurso político mergulha o mundo numa espécie de pensamento, sempre do mesmo tipo, mesmo para situações distintas, destruindo singularidades e tudo o que torna as várias culturas e povos únicos. Isto é, este discurso político pretende impor-se em todo o lado.

Todavia, para o ideólogo de Putin, Alexander Dugin, que comentadores do ocidente designam como uma espécie de Rasputin de Putin, há muito tempo que os russos são um “povo imperial”, e podem liderar um “império mundial”. Curioso como ao mesmo tempo acusam os EUA e o Ocidente de imperialistas.

A ideia de Putin parece ser a da substituição de um imperialismo por outro, esse outro que terminaria com a democracia e com o liberalismo para os substituir por um despotismo com mando absoluto e arbitrário como o que ele está a impor aos russos. A leitura analítica dos discursos políticos de Putin conduz-nos à perceção de que não pretende substituir a pertença unicidade de pensamento de que acusa o Ocidente, mas à pretensão de que o Mundo deve passar a aceitar o seu pensamento como único.

Os discursos de Putin revelam uma aproximação ao radicalismo que Alexander Dugin defende no seu livro onde argumenta que a Rússia deve retornar ao seu antigo poder e garantir que o “atlântico” (valores ocidentais que incluem o liberalismo, os mercados livres e a democracia representados pelos EUA e pela  Europa Ocidental), perca a sua influência sobre o que ele denomina por “Eurásia” territórios outrora governados, pela União Soviética, que precisa defender uma hierarquia, tradição e uma estrutura jurídica estrita. Isto é, instituir uma ditadura fascista de cariz totalitário para toda a Europa.

Porém, Putin parece ter-se ainda estará inspirado num outro livro do mesmo autor para tomar a decisão de invadir a Ucrânia que se supõe ser Foundations of Geopolitics.

Nas pesquisas efetuadas encontrei um artigo de Marlène Laruelle, especialista em estudos europeus e russos, onde caracteriza Dugin como um ideólogo tradicionalista, fascista e antissemita. No campo geopolítico é um ultranacionalista russo agressivo. Num canal do Youtube Alexander Dugin em 2015(?) incentivou ao ódio numa mensagem que incluía afirmações como “Os ucranianos precisam de ser mortos, mortos e mortos, estou a dizer-lhes isto como professor“ canal bloqueado pela empresa detentora. A dúvida é saber quantas das suas estratégias anteriores e estratagemas destrutivos se concretizaram por parte do Governo do Kremlin. Em abril de 2014 Dugin, num programa de televisão do jornalista Vladimir Posner, argumentou provocatoriamente que a Rússia deveria reconstruir os seus stocks de armas nucleares.

Em março de 2022 Jaweed Kaleem, correspondente do Los Angeles Times, escreveu que Putin ao “justificar a guerra que lançou no final de fevereiro, culpando o “Ocidente decadente” por tentar eliminar a identidade, fronteiras e segurança russas, lançou a ideia-chave do eurosianismo, uma teoria política do século XX que os seguidores modernos descrevem com argumentos de que a Rússia não faz parte da Europa nem da Ásia e que é inimiga do mundo “Atlântico” liderado pelos EUA”, pressupostos estes que são os de Alexander Dugin.

O grande objetivo de Putin seria a deposição de Zelensky para colocar no seu lugar uma figura de presidente fantoche da sua confiança, um governo pró-Moscovo em Kiev, como sucede na Bielorrússia, que renunciasse à militarização, reconhecesse a Crimeia como russa e alterasse a Constituição para voltar atrás na adesão à NATO e à U.E., concretização que para Putin seria um sucesso político inegável.

Nesta linha da propaganda que é a pretensão de fazer uma Rússia grande realizou-se no dia 7 de junho de 2022 uma reunião com a presença do Presidente do Estado da Duma Viacheslava Volodina com uma delegação do Conselho Popular da DPR- República Popular de Donetsk chefiada pelo seu presidente Vladimir Bidevka onde este afirmou que “Tenho a certeza de que definitivamente estaremos em casa, como parte de uma grande Rússia: a gloriosa Rússia, a grande Rússia! E tenho a certeza de que aqui todos devemos trabalhar em benefício deste objetivo - em benefício da Rússia - e nos concentrarmos hoje em volta do seu líder Vladimir Putin”.

De acordo com um relato do New York Times baseado em entrevistas com aqueles que recentemente interagiram com Putin, dizem que "perdeu completamente o interesse no presente" e passa grande parte deste tempo debruçado sobre a história russa com seus confidentes mais próximos. Os líderes estrangeiros visitantes são frequentemente tratados com extenso palavreado sobre a história russa.

Em 21 de fevereiro de 2022 Vladimir Putin assinou um decreto onde reconhece partes do leste da Ucrânia, Donetsk e Lugansk como entidades independentes, numa clara violação dos acordos de Minsk e ordenou o envio de tropas para as duas regiões separatistas para “manutenção da paz” desenvolvimento que pode ler aqui. Num discurso dirigido aos russos Putin responde com uma reescrita e interpretação ficcionada da história.

Como se sabe, Vladimir Putin está no controle da Rússia desde 1999 e em 2020 mexeu os cordelinhos internos para se manter no poder após 2036 fazendo mudanças para garantir que o cargo que ocupa mantenha e aumente mais o seu poder. Em janeiro de 2020 num discurso presidencial, Putin propôs casualmente mudanças constitucionais para aumentar a “independência e responsabilidade do primeiro-ministro“. Todavia não ficou claro quando as mudanças poderiam ser realizadas ou quando poderiam entrar em vigor.

No seu discurso anual de estado da nação Putin queria que a Duma, câmara baixa do parlamento da Rússia, tivesse o poder de escolher o primeiro-ministro. Em março de 2021 essa mesma Duma introduziu uma legislação que permitisse a Putin concorrer a mais dois mandatos presidenciais de seis anos, mas, para isso, teve que colocar o país sob uma ditadura despótica. O argumento era que “Aumentaria o papel e a importância do parlamento do país e a independência e responsabilidade do primeiro-ministro”, justificava Putin.

A estratégia seria planear antecipadamente uma “jogada” de longo prazo que procuraria o enfraquecimento dos laços dos EUA com a Europa, o desagregar da União Europeia e, por consequência, desfazer a NATO para o que, como se verá adiante, Donald Trump estava também a contribuir.

Putin, ao agir para resolver problemas isoladamente, pretende preservar a posição da Rússia como uma potência hegemónica no cenário mundial. Aliás, os comentadores pró Putin que em Portugal publicam nas redes sociais e nos media textos anti ocidente (EUA, NATO e U.E.), defendem a tese de um Mundo multipolar, quando não apenas da Rússia, e não apenas a supremacia dos EUA, mas no substrato encontra-se preferencialmente a hegemonia da Rússia.

Esta estratégia foi também mencionada por Dugin no livro Foundations of Geopolitics: The Geopolitical Future of Russia, (1997) onde assinala as estratégias dos adversários da Rússia, elabora a sua própria e fornece passos ousados para recuperar a posição de domínio da Rússia perdida no final da Guerra Fria. As recomendações mais enérgicas incluem a invasão da Geórgia, a anexação da Ucrânia, a separação da Grã-Bretanha do resto da Europa, e a disseminação de sementes divisionistas nos Estados Unidos. Cada uma delas é-nos bastante familiar. Nos EUA encontramos a estratégia divisionista de Trump que iremos ver adiante.

No mesmo livro Dugin avança ainda que a Rússia precisaria da linha costeira do Mar Negro tanto para o comércio quanto como base naval de operações para que a “costa norte do Mar Negro pudesse ser exclusiva e centralmente subordinada a Moscovo.”

O apoio às extremas-direita na Europa não terá estado fora da eventual ligação ideológica Putin-Dugin. Especialistas do ocidente consideram que Putin, talvez por inspiração de Dugin, tem ligação aos movimentos europeus de extrema-direita e aos partidos populistas em ascensão nos países da Europa e, provavelmente, também no EUA. 

Como se tem confirmado as proclamações de Putin são a evidência das suas contradições e negações. A negação e a mentira são dois atributos de Putin na sua política interna e externa. Ele olha para os movimentos populistas, partidos de extrema-direita e partidos nacionalistas a primeira expressão concreta da chamada Quarta Teoria Política, como a descreveu Dugin em 2018, como sendo a realização do seu programa político. Por outro lado, ataca a Ucrânia por ser nacionalista e diz pretender “desucranizá-la”. Os partidos elogiados são o partido italiano de extrema-direita Liga (Liga do Norte), liderado por Matteo Salvini e o Movimento 5 Estrelas, movimento populista fundado em 2009.

O governo italiano confirmava em 2018 que era a primeira expressão concreta da chamada Quarta Teoria Política de Dugin e a realização do programa político deste autor. “A união entre Lega - Liga do Norte e o Movimento Cinco Estrelas é o primeiro passo histórico para a afirmação irreversível do populismo e a transição para um mundo multipolar”, escreveu Dugin e acrescentava que, por essa razão, naquela altura o governo italiano era um parceiro natural do Kremlin.

Quatro anos depois, no dia 22 de junho de 2022, o Movimento 5 Cinco Estrelas dividiu-se para formar um novo grupo parlamentar que apoiará o primeiro-ministro Mario Draghi. Esta decisão foi tomada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Luigi Di Maio, depois de criticar o seu próprio partido por não apoiar o governo italiano no envio de armas para a Ucrânia. Entretanto, no momento em que escrevo este texto, Mário Draghi demitiu-se.

Mas há outros extremistas elogiados e há outros exemplos de populismo da simpatia de Putin que são o partido conservador alemão, AfD - Alternative für Deutschland, RN – Ressemblement National de Marine Le Pen, já referida, e Jean-Luc Melenchon em França, e, em certa medida, Donald Trump nos EUA.

Tradicionalmente a AfD apoia Putin, e, como muitos dos partidos políticos de extrema-direita da Europa, os seus principais políticos mantiveram laços com o Kremlin e desfrutaram do seu apoio ativo. A oposição de Putin a organizações ocidentais como a NATO e a U.E. insere-se perfeitamente na base de alguns dos programas eleitorais de populistas e de extrema-direita

nomeadamente o programa eleitoral da AfD, sobretudo no leste da Alemanha que é cética em relação à U.E., e talvez pelos laços históricos influenciarem uma empatia cultural com a Rússia, muito embora residual. Porém, apesar de alguns grupos de extrema-direita estarem divididos entre uma posição

pró-russa (digo antes, pró-Putin) e uma postura pró-Ucrânia, quando falam aos seus eleitores os líderes de partidos nacionalistas radicais de direita, como Marine Le Pen e Matteo Salvini, condenam com mais ou menos veemência a intervenção de Putin.

Marine Le Pen foi colocada em janeiro de 2017 na lista negra da Ucrânia por ter defendido a anexação da península da Crimeia pela Rússia, em 2014, ato considerado ilegal pela comunidade internacional. O Governo ucraniano considerou que fez “declarações que reproduziam a propaganda do Kremlin, demonstrando desrespeito pela soberania e integridade territorial da Ucrânia e ignorar completamente os princípios fundamentais do direito internacional”.

Em abril de 2022, próximo da campanha eleitoral em França, Le Pen mudou o discurso e nas últimas semanas antes da ida às urnas, a candidata francesa obrigou-se a admitir que a invasão da Ucrânia por Moscovo foi “uma clara violação do direito internacional e absolutamente indefensável”, mas pediu uma “aproximação estratégica entre a NATO e a Rússia”, logo que a guerra terminar. Estranha estratégia que poderá ter levado Putin a deixar de elogiar e apoiar estes partidos.

Em março de 2022, houve um confronto televisivo no canal France2, principalmente focado em temas europeus, entre o secretário do Partido Democrata de centro-esquerda de Itália Enrico Letta e a presidente da RN - Rassemblement National, Marine Le Pen, candidata às eleições presidenciais. Neste confronto televisivo o líder do Partido Democrata censurou Le Pen ao dizer que “Os seus amigos eram Trump e Putin, um atacou o Capitólio, o outro bombardeou a Ucrânia. A sua política externa é um fracasso.”. Esta afirmação deixou Marine Le Pen e os políticos de extrema-direita e entusiastas de Putin numa difícil posição após a invasão da Ucrânia.

No meio de todas estas relações deu-se um novo desenvolvimento, resultado da guerra na Ucrânia, que poderá dar às democracias europeias uma nova visão democrática e alguma esperança para o futuro. Muitos dos políticos de extrema-direita da Europa, que há muito enalteciam e elogiavam publicamente Putin e o seu nacional-imperialismo, passaram a distanciar-se da ideologia que se apoia num “nacional-totalitarismo”, que o líder russo impõe ao seu povo pela mentira e pela censura e que pretende também impor a países soberanos.

O nacionalismo fornece aos ditadores a arma ideal para resistirem à democratização rejeitando, em nome do princípio da não ingerência nos assuntos internos, que a comunidade internacional ponha em causa o regime. Totalitário e censor no interior amordaçando o seu país e revolucionário para o exterior ao dizer querer libertar a Ucrânia do nacionalismo e do nazismo, o nacional-totalitarismo de Putin toca, assim, nas várias teclas das ditaduras ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo, na Europa, o nacionalismo da Ucrânia é apresentado como aceitável, opondo-se ao nacionalismo imperialista russo. A luta ucraniana pela manutenção da sua independência, soberania e identidade nacional pode ter como consequência, inspirar os nacionalistas de extrema-direita na Europa, fazendo com que ganhem força que, de certo modo, têm vindo a obter aproveitando como argumentação a luta pró-nacionalista.

Embora a situação da Ucrânia difira da dos movimentos independentistas regionais, estes podem argumentar contra a perda de soberania que, segundo eles, lhes é imposta pelos estados onde se integram. São exemplos a Escócia, o País Basco e a Catalunha. Argumentos idênticos também poderão dar impulso aos partidos políticos nacionalistas como o Rassemblement National em França, a Lega na Itália, a AfD na Alemanha e o Vox na Espanha, partidos implantados nos principais países europeus.

Vladimir Putin defende a construção de um mundo multipolar e rejeita as imposições da hegemonia global supranacional que ele e os seus seguidores identificam como sendo dos Estados Unidos da América. Mas, ao mesmo tempo coloca-se numa perspetiva de querer impor a sua própria hegemonia, para tal tem esperado pela desagregação da U.E. e da NATO para retirar os EUA do palco mundial numa tradução na política das teorias de Dugin. 

No entanto, não deixa de ser curioso e causar surpresa que Vladimir Putin no 25.º Fórum Económico Internacional de São Petersburgo que decorreu de 15 a 18 de junho de 2022 tenha dito que a Rússia não está preocupada que a Ucrânia possa obter o estatuto de candidata “porque a União Europeia não é uma organização militar“, isto é, não é uma ameaça para a Rússia como o é a NATO.

Muitos pró Putin que escrevem nas redes sociais, alguns deles conhecidos, e outros que comentam nas televisões, repetem, tal e qual o Kremlin e a propaganda russa, que a União Europeia perdeu a sua soberania política, e que as suas elites burocráticas estão a dançar ao som de outra pessoa (leia-se EUA e Biden), fazendo tudo o que é dito “do alto” prejudicando o seu próprio povo, as economias e as empresas. Repetem de outro modo o discurso de Putin que acusa o ocidente de russofobia. Acho que Putin está errado, o que se passa no Ocidente é a “Putinofobia” devido à sua política, quer interna, quer externa. Esperemos que os russos um dia, que seja breve, acordem do pesadelo que lhes induzem como se fosse de tranquilidade.

A candidatura para a adesão da Ucrânia à U.E., e posteriormente à NATO, parece-me ser politicamente enganadora. Não sabemos como a Ucrânia, a ser destruída pela invasão de Putin e ficando com o seu território parcialmente ocupado, irá conseguir cumprir as exigências para a adesão. Levanta-se uma dúvida: como é que futuramente Putin irá corrigir o conflito territorial com a Ucrânia e facilitar a sua adesão à União Europeia quando antes tinha, não sabemos se ainda mantém, intenções de contribuir para o seu desmembramento.

A invasão da Ucrânia de Trump a Putin II

Manuel_AR, 01.09.23
  1. Donald Trump o segundo ator da conspiração e o seu discurso de ódio.

A presidência de Donald Trump foi caracterizada por discurso que incitavam ao antagonismo e ao ódio mais agressivo do que o de Putin. Gonzalez, 2016, p. 28, escrevia numa publicação que a sua forma de se expressar variava entre negativa, irreverente e agressiva lesivas das minorias, inclusive discriminatórias e, algumas vezes, de apologia de delitos e que era um “ discurso que mostra um novo rosto do fascismo global que busca o confronto, a violência política e a justificação do Estado para se afastar dos valores legais e da ética pública em seu sentido universal”.

É aqui que entra o segundo ator da minha teoria da conspiração Donald Trump que antes e durante o seu mandato como presidente dos EUA expressava-se com um discurso extremista e no palco internacional parecia cooperar com Putin numa espécie de pacto informal para o enfraquecimento da União Europeia e da NATO tão desejados por Putin e para impor nos EUA um regime unipessoal e autoritário.

De acordo com muitos analistas e historiadores, a política possui movimentos pendulares que oscilam entre os campos ideológicos de esquerda e de direita. O pendulo na última década tem-se inclinado para a extrema-direita devido a populismos de regimes conservadores que, por sua vez, têm vindo a mostrar demagogicamente que são a melhor solução para os problemas decorrentes de crises económicas e iminentes ameaças internas e externas. Neste sentido, os governos de Donald Trump (Estados Unidos) e de Vladimir Putin (Rússia) têm chamado a atenção no cenário internacional. Poderemos de certo modo encontrar uma base ideológica comum de como interpretar o poder que evidencia uma possível aliança global entre eles.

Do lado de lá do Atlântico Donald Trump em janeiro de 2017 tomou posse como presidente dos Estados Unidos e traçou um caminho que, segundo ele, deveria “tornar a América grande outra vez”. Vladimir Putin, à semelhança de Trump, conforme afirmou na sua tomada de posse em 2018 era tornar a “Rússia grande”, e prosseguir na expansão territorial da sua área de influência. Repare-se na proximidade das datas e nas ocasiões dos dois presidentes em que foram feitas aquelas afirmações.

Putin não se escusou de afirmar que pretendia tornar a Rússia, não apenas novamente grande, mas ainda, tal como foi “grande” em 1945 quando o Exército Vermelho ocupou Berlim.

Trump em junho de 2015 ao anunciar que seria candidato em 2016 nas eleições presidenciais dos EUA disse que se comprometia a “tornar a América grande novamente”.

Antes de Donald Trump terminar o seu mandato em junho de 2021 Vladimir Putin, em janeiro do mesmo ano, numa nova tentativa para consolidar as suas opiniões publica o ensaio “Sobre a Unidade Histórica de Russos e Ucranianos“ em que faz uma revisão histórica, conforme aos seus interesses, negando a realidade histórica de qualquer estado ucraniano separado de uma Grande Rússia.

A ideia de uma conspiração de que a Rússia está a ser alvo por parte do Ocidente e de que a Ucrânia está a ser usada pelo Ocidente como parte de um plano para enfraquecer e até mesmo destruir a Rússia serve para consolidar a estratégia de Putin para endurecer a guerra e fazer ameaças. Os seus fiéis também dizem que a Ucrânia está a preparar-se para a guerra há algum tempo, com a ajuda dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Esta parece-me ser a teoria da conspiração sustentada por Putin que Trump aprova, conforme relatos das suas declarações. O grande problema é que, à volta de Putin, há gente extremista que só lhe diz o que ele quer ouvir, por medo ou por adulação.

Hoje, 10 de julho, data em que escrevo estas linhas, a agência russa de notícia Tass e a NewsFront, apresentando-se esta última como agência de notícias e meio de contra a desinformação e a propaganda,  particularmente focado em apoiar as forças da Rússia na Ucrânia e lutar, segundo diz, contra uma guerra de informações e de ataques injustos à Rússia, publicavam que o ex-líder americano Donald Trump ao falar no sábado aos seus apoiantes em Anchorage (Alasca) num comício transmitido por empresas de televisão conservadoras americanas terá dito que “acredita que não permitiria um conflito na Ucrânia em caso de reeleição nas eleições presidenciais de 2020 nos Estados Unidos”. O referido site de notícias acrescenta ainda que, quanto à Ucrânia, de acordo com a sua previsão, a situação nesta região só irá piorar, mas tudo isso poderia ter sido evitado se as eleições de 2020 tivessem corrido de forma diferente. A mesma fonte acrescentou ainda que a “fraqueza e incompetência” de Biden “levou ao agravamento da situação, o que certamente não teria acontecido sob sua administração”, referindo-se a Trump. Numa pesquisa que efetuei aos media dos EUA não se encontram referências, relativamente àquelas afirmações de Trump no referido comício. Todavia, poderão ter sido referidas em alturas diferentes. Como se verá adiante a afirmação de Trump não terá sido difundida no comício, mas sim  através do Tweet.

O jornal online mais lidos no estado do Alasca, Anchorage Daily News, escrevia num artigo de opinião publicado em 7 de julho do corrente que “Trump é a melhor esperança da Rússia para desestabilizar a nossa democracia”. Não se tratava de especulação porque, de facto, em 19 de dezembro de 2020 Trump escreveu num tweet que “Grande protesto em Washington em 6 de janeiro. Esteja lá, será selvagem!” Este tweet de Trump acabou por ter um efeito violento em grupos de milícias de extrema-direita. Mais grave ainda é a mensagem que escreveu no Twitter em 10 de julho de 2022 que foi divulgada pela Nexta TV, meio de comunicação bielorrusso distribuído principalmente através dos canais Telegram e YouTube:

Somos o Estado que permitiu que a Rússia devastasse a Ucrânia, matando milhares de pessoas. E a situação só vai piorar, embora isso não pudesse ter acontecido se as eleições tivessem sido realizadas de forma diferente”. A obsessão por enganar o povo americano de que houve fraude nas eleições mantêm-se.

Numa polémica digressão pela Europa em maio de 2017, já como presidente, Trump colocou de pernas para o ar as relações de aproximação com os EUA que vinham do pós-guerra, confrontando os principais líderes dos aliados, sobretudo a Alemanha, o que ampliou as divergências entre os países aliados da Europa. Esta atitude levou-o a ganhar o apelido de “destruidor dos valores ocidentais” que lhe foi atribuído por Martin Schulz, na altura líder do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e candidato à chefia do governo que acrescentou que a resposta é “uma Europa mais unida”. As declarações de Trump foram no sentido contrário ao que Putin esperava ao mandar invadir a Ucrânia que era ver uma U.E. desunida.

No seguimento das afirmações agradáveis a Putin, Trump intensificou uma espécie de discórdia e criticou importantes aliados da NATO pelos seus gastos militares e recusou-se a apoiar um acordo global de combate às mudanças climáticas saudando ainda a saída da Grã-Bretanha da U.E. Para ambos seria o princípio para o desenho de uma Europa desunida e enfraquecida.

Não é de rejeitar a ideia de que a critica de Trump à NATO e a sugestão de um acordo com a Rússia para reduzir os arsenais nucleares e aliviar as sanções com Moscovo tenha, na altura, deixado Putin muito satisfeito. Putin terá visto em Trump um potencial aliado para alguns dos seus projetos que coincidiam com os de Donald Trump tais como o enfraquecimento da NATO e desmembramento da U.E.

Porém, os comentários de Trump causaram consternação entre os países do leste europeu que aderiram à NATO por estarem incomodados com Moscovo, após a anexação da Crimeia, república autónoma da Ucrânia anexada pela Rússia em 2014, facto que gerou o conflito na região e que perdura até hoje. Depois disso seguiu-se a invasão da Ucrânia.

Após a vitória eleitoral em janeiro de 2017 e a tomada de posse de Trump o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, chegou a dizer que a aliança foi uma base de segurança transatlântica por quase 70 anos, reforçando ainda que nestes tempos, face aos novos desafios que se perfilam, essa alinaça impõe-se como imprescindível e especialmente necessária.

As aproximações e simpatias de Trump por Putin não se ficam por aqui. Denegrindo o seu antecessor, o presidente dos EUA Barak Obama, Donald Trump disse em setembro de 2016 à cadeia de televisão NBC que considera Putin um líder mais forte do que Barack Obama. As suas palavras são claras: “Eu já disse, que ele é realmente muito bom líder…  o homem tem um controle muito forte sobre o país”, disse Trump. E acrescentava “Agora, é um sistema muito diferente, e eu não gosto do sistema. Mas, certamente, nesse sistema, ele tem sido um líder, muito mais do que o nosso presidente tem sido um líder”.

Donald Trump chegou a elogiar Vladimir Putin pelo seu artigo de opinião publicado no New York Times em 2013 no qual criticava a frase onde o Presidente Obama aplicou o termo “excecionalismo americano”. Passo a citar a frase que Putin escreveu:

A minha relação pessoal e de trabalho com o Presidente Obama é marcada por uma confiança crescente. Eu agradeço isso. Estudei cuidadosamente o seu discurso à nação na terça-feira. E eu prefiro discordar de um caso que ele fez sobre o excecionalismo americano, afirmando que a política dos Estados Unidos é “o que torna a América diferente. É o que nos torna excecionais.” É extremamente perigoso encorajar as pessoas a verem-se como excecionais, qualquer que seja a motivação. Há grandes países e pequenos países, ricos e pobres, aqueles com longas tradições democráticas e aqueles que ainda encontram o seu caminho para a democracia. As suas políticas também diferem. Somos todos diferentes, mas quando pedimos as bênçãos do Senhor, não devemos esquecer que Deus nos criou iguais.

Estas palavras de Putin parecem-me ser de um cinismo sem limites que acabou por revelar ao contradizer-se entre o pensamento e o ato de invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022.

A admiração de Trump por Putin foi ao ponto de elogiar o artigo que Putin escreveu no The New York Times onde fez observações críticas sobre o líder dos EUA na época. Dizer que foi “incrível” ao comentar as críticas vindas de um líder de outro país, de certo modo antagonista, não se coaduna com o estatuto de um candidato à Presidência que utilizou palavras como “Foi simplesmente incrível. Ele disse tanto e o disse de uma forma muito agradável, mas não foi nada bom.”, afirmou Trump que acrescentou: “Obama está tendo um tempo muito, muito difícil.”.

Durante a campanha para a eleição presidencial de 2016 Donald Trump não teve acanhamento elogiar as palavras de Putin o que deu lugar a um comentário no New York Times sob o título “Vexing His Allies, Trump Keeps Up Praise of Putin”, página 9, onde se escrevia que “A campanha de Donald Trump reafirmou o seu caloroso apoio a Vladimir Putin. Trump observa com admiração que Putin goza de 82% de apoio público na Rússia”. Não espantaria que encontrasse um tipo ainda mais admirável em Estaline, sob cuja liderança o Partido Comunista da União Soviética ganhou com 99,7% dos votos nas eleições de 1950 para o Soviético Supremo.

A isto merece acrescentar que Putin pôde escrever o que pensa num jornal livre e independente do ocidente que lhe publicou o artigo. As declarações de Trump, na altura candidato à presidência de um país soberano, livre e independente, não é usual no âmbito das relações institucionais fazer-se elogios e comentários pouco abonatórios, embora com alguma fineza como disse Trump, sobre um seu antecessor vindos de um líder de um país oponente.

As relações de aproximação de Trump com Putin reveladas por afirmações mais ou menos polémicas são várias. As primeiras que os media noticiaram encontradas nas pesquisas efetuadas reportam ao ano de 2013 e seguintes. Algumas são vulgares, sem grandes implicações na política, mas são demonstrativas da aproximação de Trump e Putin.

Trump escreveu no Twitter em 18 junho de 2013:

“Você acha que Putin irá ao concurso Miss Universo em novembro em Moscovo? Se assim for, ele vai tornar-se o meu novo melhor amigo? Donald J. Trump (@realDonaldTrump).

(A conta de Trump nesta rede social encontra-se suspensa.)

Trump elogia Putin pela sua crítica ao termo “excepcionalismo americano”:

“Você pensa no termo como sendo bom, mas de repente você diz, e se você estiver na Alemanha ou no Japão ou em qualquer um dos 100 países diferentes? Você não vai gostar desse termo”, disse Trump à CNN. “É muito insultante e Putin realmente aplicou-lhe isso”. (referia-se a Obama)”.

Em 3 de outubro de 2013 no programa “Politicking with Larry King - Ora TV” Donald Trump disse que Putin fez “um ótimo trabalho ao superar o nosso país”. Dias depois, 17 de outubro, no programa da CBS “Late Show” com David Letterman, Donald Trump confirma que fez “muitos negócios com os russos” e que são “inteligentes” e “durões” e que agora não “parecem tão burros”. Ele chama a Putin “durão” e diz  que o “conheceu uma vez”.

Na altura do concurso de Miss Universo realizado em 9 de novembro de 2013 nas proximidades de Moscovo Trump disse que Putin entrou em contacto com ele e que foi “tão formidável”, (palavras de Trump ‘so nice’). Na “Fox and Friends”, programa de notícias americano emitido pela Fox News afirmou que: “Quando fui à Rússia durante o concurso de miss Universo, Putin contactou-me e foi formidável. Quero dizer, o povo russo foi fantástico connosco”. “Eu só vou dizer isso, o que eles estão a fazer, em muitos momentos eles estão a enganar-nos, como todos nós entendemos. Quero dizer, os seus líderes são, quer você os chame mais espertos ou mais astutos ou o que seja, mas eles estão a enganar-nos. Se você olhar para a Síria ou outros lugares, eles estão a enganar-nos”. (Pode consultar nos arquivos da FoxNews).

Em 2014, durante um discurso na CPAC - Conservative Political Action Conference, evento político promovido pelo partido conservador dos Estados Unidos, Trump gabou-se de se encontrar com os conselheiros de Putin e até mesmo de receber um presente e uma nota pessoal de Putin durante o concurso Miss Universo em Moscovo. Alguns órgãos de comunicação nos EUA noticiaram que Donald Trump durante o tempo que durou o concurso de Miss Universo em 2014 fez vários elogios a Putin e orgulhou-se de receber presentes de Putin e de se encontrar com os seus conselheiros.

A admiração aberta por Putin entre alguns grupos da direita americana representa uma reversão do período da Guerra Fria, quando os republicanos conservadores eram famosos antissoviéticos. Em 2012, o candidato presidencial republicano Mitt Romney descreveu a Rússia como o "inimigo geopolítico número um da América". Com a eleição de Donald Trump para a Casa Branca, o sentimento anti russo foi substituído pela admiração pela personalidade forte de Putin e pela postura antiliberal e antidemocrática do seu regime. "O facto de Trump admirar abertamente Putin significava que muitos de seus apoiantes também admiravam abertamente Putin ", constava nos meios políticos republicanos. Os admiradores de Putin da elite política e dos media nos EUA incluem o agitador de ultradireita Steve Bannon e ex-assessor de Trump da Casa Branca.

Nos EUA o apresentador de televisão Tucker Carlson, comentarista e analista político da Fox News, argumentava em 28 de fevereiro de 2022 que a única razão pela qual os americanos odeiam Putin é porque foram vítimas de uma campanha de propaganda e que o verdadeiro inimigo são os liberais internos não republicanos. Muitos anos antes já o ex-conselheiro de Trump e Carlson tinham difundido a ideia e o apoio a um movimento autoritário que juntaria apoiantes de Trump nos EUA a líderes de extrema-direita no exterior.

Na altura da invasão da Ucrânia por Putin a comunicação social nos EUA, afeta ao partido republicano, atacou Biden como sendo um fraco e elogiava Putin e Trump em vez de culpar o agressor por atacar o seu vizinho mais fraco, culpava Biden por supostamente ter lançado o epíteto de fraqueza e vulnerabilidade a Putin. Se nos recordamos foi Biden quem acionou a resposta diplomática internacional de sanções económicas contra a Rússia numa aproximação com a U.E. Contudo, comentaristas de direita continuam a declarar que Putin é o único que representa o tipo de líder forte que eles realmente preferem, o mesmo se tem passado aqui em Portugal com os apoiantes dele.

Fazem-se comentários televisivos, nomeadamente na Fox News e nas redes sociais que formulam realidades alternativas que têm sido denunciadas pela “Media Matters for America”, centro de pesquisa e informação dedicado a monitorizar, analisar e corrigir desinformação conservadora nos media dos EUA, enquanto a Fox e outros meios de comunicação republicanos trabalharam anteriormente para encobrir a relação amigável de Trump com Putin quando ele estava na presidência.

Segundo a revista VanityFair a seguir à da invasão da Ucrânia, num evento nacionalista branco, depois do discurso da congressista republicana Marjorie Taylor Greene, Nick Fuentes, organizador do evento abertamente racista, liderou a multidão com gritos de "Putin, Putin" e de elogios a Adolph Hitler.

Para Trump e os seus adeptos fascistas e autoritários, a invasão russa à Ucrânia poderá ter sido um ponto de viragem numa espécie de guerra política contra a democracia que se tem evidenciado em todo o Mundo. Mas este efémero triunfo parece ter desaparecido porque as forças pró-fascistas e autoritárias terão subestimado a resistência ucraniana e o sentimento pró-democrático que a guerra inspirou. As sanções contra a Rússia parecem causar sérios danos, e os trumpistas parecem ter começado a recuar rapidamente.

Dois dias depois da entrada das tropas de Putin no leste da Ucrânia e ainda que Trump se tenha mostrado como sendo o mais indicado para se opor a Putin, a maioria dos republicanos do Congresso apoiou a promessa de Biden de impor sanções esmagadoras à Rússia. Alguns até elogiaram os movimentos de Biden, como o envio de tropas adicionais dos EUA para a Europa Oriental para reforço das defesas da NATO.

Recordemos que no passado não muito longínquo Donald Trump, ainda antes de se candidatar a presidente, numa espécie de pré campanha, criticava o presidente Obama por não tomar posição mais dura contra o presidente Vladimir Putin no caso da Ucrânia, dizendo que temia que Obama fosse compensar o tempo perdido com movimentos imprudentes para “mostrar a sua masculinidade”.

Nessa mesma altura, Obama em declarações à imprensa após uma reunião em Varsóvia com Poroshenko – que liderou a Ucrânia entre 2014 e 2019, que foi derrotado por Zelensky, atual presidente da Ucrânia - dizia que “O governo dos Estados Unidos está completamente comprometido em permanecer ao lado do povo ucraniano, não apenas nos próximos dias ou semanas, e sim nos próximos anos”.

Estamos agora profundamente preocupados com os relatos de movimentações militares feitos pela Federação Russa dentro da Ucrânia“ disse Obama acrescentando que qualquer violação da soberania e da integridade territorial da Ucrânia será “profundamente desestabilizadora”, e que “Os Estados Unidos colocar-se-ão com a comunidade internacional na afirmação de que haverá custos para qualquer intervenção militar na Ucrânia”. Estávamos em fevereiro de 2014.

No dia 1 de março a comunicação social alertava que Kiev tinha denunciado nessa noite uma “invasão armada” da Crimeia por mais de 2.000 soldados russos aerotransportados para Simferopol, capital da república autónoma do sul da Ucrânia. Cerca de oito anos depois Putin invade a Ucrânia.

Em 21 de março do mesmo ano Trump escrevia no Twitter

“acredito que Putin continuará a reconstruir o Império Russo. Ele não tem respeito por Obama ou pelos EUA!”, (@realDonaldTrump, conta, suspensa pela rede social no final do seu mandato como presidente).

Se, por um lado, Donald Trump elogiava Vladimir Putin, por outro, criticava-o por enviar tropas militares para a Crimeia considerando-o imperialista e sem consideração para com os EUA e para com o seu então presidente Obama.  

Em agosto de 2016 Donald Trump numa entrevista à cadeia de televisão ABC (31 de julho) que serviu mais para atacar Obama do que para esclarecer,  afirmava que o presidente russo Vladimir Putin não faria um movimento militar para a Ucrânia, embora Putin já tivesse feito exatamente isso, capturando a Península da Crimeia e acrescentava categoricamente que Putin não iria invadir a Ucrânia. Como quem o entrevistava contrariou-o dizendo que Putin já lá estava referindo-se à Crimeia, e que tinha feito exatamente isso, apreendendo a Península da Crimeia da Ucrânia no início de 2014. Trump respondeu-lhe: “OK - bem, ele está lá de uma certa maneira. Mas eu não estou lá. Quem lá está é Obama. E, francamente, toda essa parte do mundo é uma bagunça na presidência de Obama apesar da força que refere e de todo o poder da NATO”. “Todavia, o presidente russo Vladimir Putin não fará um movimento militar para a Ucrânia”.

As contradições de Trump quando se refere a Putin são muitas e variadas e sobre as declarações da sua relação pessoal com Putin afirmava numa entrevista que “Eu não tenho nenhuma relação com Putin. Não, não tenho nenhuma relação com Putin”, e acrescentava dirigindo-se ao seu interlocutor: “Só para você entender, ele disse coisas muito boas sobre mim. Mas não tenho nenhuma relação com ele. Não, eu nunca o conheci”. Porém, num debate durante as eleições primárias em novembro de 2015, Trump havia dito sobre Putin: “Eu conheci-o muito bem porque os dois estávamos no '60 Minutes', (programa do canal CBS), éramos companheiros”. Vale a pena ler partes da transcrição dessa entrevista inserido num artigo da CNN em 2016 incluído nas fontes no final do artigo.

Trump afirmou numa entrevista ao canal de televisão ABC, “This Week” em 31 de julho de 2016, que alguns conselheiros chamaram assustadora, levou a uma resposta de um deles da campanha de Ellery Clinton a questionar do que Trump estaria a falar pois a “A Rússia já está na Ucrânia. Ele não sabe disso? O que mais ele não sabe?”. “Trump repetiu “corajosamente” o argumento de Putin de que se justificava a Rússia tomar o território soberano de outro país à força. Isso é assustador”, disse o conselheiro da campanha num comunicado.”, acrescentando que “isso vem na esteira do seu convite tácito aos russos para invadirem os nossos aliados da NATO na Europa Oriental.”

Em síntese: Donald Trump sugeriu que os EUA aceitassem a anexação da Crimeia pela Rússia porque isso levaria a melhores relações com Moscovo.  Era na altura uma visão contra o governo de Obama, que impôs sanções económicas contra a Rússia por ter anexado o território na Ucrânia em 2014. As Nações Unidas também não quiseram que os países reconhecessem a Crimeia como parte da Rússia, e alguns dos principais republicanos defendiam firmemente a Crimeia contra o que consideram agressão russa.

Uma década atrás, 2012, Mitt Romney, candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos contra Barack Obama fez uma declaração que, na altura, foi amplamente percebida como um grande erro. Disse numa entrevista à CNN que a Rússia, é, sem dúvida, nosso inimigo geopolítico número um. Eles lutam por todas as causas e pelos piores atores do mundo.”.

Trump parece ter dado um volte-face concordando com o que Romney tinha dito, “Eles riram. Acontece que ele está absolutamente certo. Você olha para o que a Rússia está a fazer com o Irão, como eles controlaram a situação, e a Síria, e praticamente todos os outros lugares… fomos expulsos de todos. Não estou a dizer que deveríamos estar lá… ser ridicularizado e jogado para fora da forma como estamos a ser jogados fora é absolutamente impensável.”  Estas afirmações contrastam com as de abril de 2014 como anteriormente referi quando ele disse que “Acabamos de sair de Moscovo”, “Ele não poderia ter sido mais agradável. Ele foi tão excelente e tudo mais. Mas você tem que dar-lhe o crédito ao que ele está a fazer por esse país, é muito forte em termos do seu prestígio mundial.”. E também em 16 de junho de 2015, Trump faz comentários semelhantes à FoxNews “Eu estive em Moscou há dois anos e eu vou dizer-lhe – você pode dar-se bem com essas pessoas e dar-se bem com elas. Você pode fazer acordos com essas pessoas. Obama não pode”.

Ainda em 20 de dezembro de 2015, numa entrevista ao programa “This Week”, da ABC, Trump defendeu Putin sobre as alegações de que ordenou a morte de jornalistas e dissidentes afirmando que: “No que diz respeito aos repórteres obviamente eu não quero que isso aconteça. Eu acho que é terrível, horrível. Mas, para ser justo com Putin, está a dizer que ele matou pessoas. Eu não vi isso. Não sei se ele o fez. Conseguiu provar isso? Sabe os nomes dos repórteres que ele matou? Porque eu tenho ouvido isso, mas eu não vi o nome. Agora, eu acho que seria desprezível se isso ocorresse, mas eu não vi nenhuma evidência de que ele matou alguém em termos de repórteres.”.

Em dezembro de 2016 também na Fox News disse que Putin é como um “animal ferido” devido às ações do governo Obama contra a Rússia”. “Ferimos a Rússia e fizemos certas coisas que realmente prejudicaram a Rússia”, disse ele. “Eu não sei se é uma coisa boa ou se isso é uma coisa ruim. Vamos ver o que acontece”.

Em 26 de janeiro de 2016 numa entrevista a Maria Bartiromo da Fox Business Network, canal americano de televisão, Trump volta à defesa de Putin quando foi referido o assassinato de Alexander Litvinenko em 2006, um ex-agente de segurança russo, e as conclusões de um inquérito britânico que referia que Putin “provavelmente aprovou” o seu envenenamento. De imediato Trump perguntou e respondeu: “Eles declararam-no culpado?”. “Eu não acho que eles o declararam culpado.” “Se ele fez isso, tudo bem. Mas não sei se foi ele. Sabe, as pessoas estão a dizer que acham que foi ele, pode ter sido, poderia ter sido. Mas, com toda a justiça para Putin, eu não sei. Você sabe, e eu não estou a dizer isso porque ele disse que ‘Trump é brilhante e lidera todo mundo’, o facto é que, você sabe, ele não foi condenado por nada.”

O encanto com Putin continuou e em janeiro de 2017 Trump diz na CNN acreditar que a Rússia foi responsável pelo ataque hacker ao partido democrata: “Acho que foi a Rússia”, disse Trump, acrescentando que Putin “não deveria estar a fazer isso”. “Ele não vai fazê-lo. A Rússia terá muito mais respeito pelo nosso país quando eu o liderar do que quando outras pessoas o lideraram”, disse Trump. Disse ainda também acreditar que um bom relacionamento com Putin seria um trunfo.

Já como presidente Trump em 2017 declara numa entrevista dirigindo-se ao entrevistador: “Eu adoraria poder dar-me bem com a Rússia. Agora, você teve um monte de presidentes que não tomaram essa atitude. Olhe onde estamos agora. Olhe onde estamos agora. Então, se eu puder, agora, eu gosto de negociar as coisas, faço isso muito bem, e todas essas coisas. Mas… mas é possível que eu não seja capaz de me dar bem com Putin.”.

Para Trump, Putin mais parece um grande amigo que tenta defender mesmo dando descaradamente nas vistas.

Sobre acordos nucleares com a Rússia, segundo The Times of London, numa entrevista publicada em 2017, já como presidente eleito, criticando a anterior política externa dos EUA, disse que proporia a Putin oferecer o fim das sanções impostas à Rússia devidas à anexação da Crimeia em troca de um acordo de redução de armas nucleares. “Eles têm sanções sobre a Rússia, vamos ver se podemos fazer alguns bons acordos com a Rússia. A Rússia está a sofrer muito por causa das sanções, mas acho que algo pode acontecer e que muitas pessoas vão beneficiar.”.

As ligações de Trump a Putin são por demais conhecidas durante a sua presidência entre 20 de janeiro de 2017 e 20 de janeiro de 2021. A política de Putin nas suas relações com o mundo ocidental estava a correr-lhe bem. O presidente americano, assim como Putin, parecia mostrar ser um seu admirador e partidos políticos pró-russos e de extrema-direita entendiam-se e estavam a prosperar na Alemanha, Itália, Áustria, França e noutros países.

Alguns deles devido à invasão da Ucrânia fecharam-se nas suas conchas e olham de lado para Putin o que pronuncia afastamento, com foi o caso do RN - Rassemblement National em França. Por cá, no nosso país, isso não aconteceu, mas, nas redes sociais e alguns, poucos, comentadores, alguns simpatizantes da esquerda radical, lá vão puxando a brasa para o lado de Putin.

Donald Trump falava sobre a influência da NATO e, supostamente, planeava retirar-se da organização num segundo mandato, chegando até a comentar que até lá “Talvez a NATO se dissolva, e tudo bem, isso não é a pior coisa do mundo“ afirmou na altura. A União Europeia também estava na mira de Donald Trump. Numa entrevista à CBS Evening News Donald Trump em julho de 2018, horas antes de ir para Helsínquia para uma reunião política, quando lhe foi pedido para identificar globalmente o seu “maior inimigo no momento” indicou a União Europeia, composta por alguns dos aliados mais antigos dos EUA afirmando que: “Acho que nós temos um monte de inimigos. Penso que a União Europeia é um inimigo pelo que faz connosco no comércio. Agora, você acharia isso da União Europeia, mas eles são um inimigo.”. E acrescentou que “A Rússia é inimiga em certos aspetos. A China é um inimigo economicamente, certamente que eles são um inimigo. Mas isso não significa que eles são maus. Não significa nada. Significa que eles são competitivos”.

Surpreendido o jornalista que o entrevistava respondeu-lhe que “Muitas pessoas ficariam surpreendidas ao ouvir o senhor presidente mencionar a U.E. como um inimigo, mais do que a China e a Rússia”. Trump insistiu que: “A U.E. é muito difícil. Respeito os líderes desses países. Mas no aspeto comercial eles realmente aproveitaram-se de nós.” Isto é, para Trump os EUA são explorados pelos seus aliados. Estas afirmações não levantam dúvidas, mesmo para quem ainda as tivesse sobre a suas intenções anti U.E., que coincidiam com as de Putin.

Ainda na mesma altura e sobre o Brexit, Donald Trump aconselhou Theresa May a processar a EU. Segundo a ex-primeira-ministra britânica o presidente ter-lhe-á dito para ela não se preocupar em negociar com Bruxelas, mas para levar todo o bloco comercial ao tribunal. Ao jornal SUN Trump ameaçou, quando disse que o novo modelo de Brexit suave que Theresa May queria negociar, se fosse proposto, “mataria” qualquer futuro acordo comercial com os Estados Unidos.

Estas declarações levaram o presidente do conselho europeu, na altura Donald Tusk, numa entrevista dada em 2018 a dizer que “A América e a U.E. são melhores amigas. Quem diz que somos inimigos está a espalhar notícias falsas.”,  frase que foi colocada no Twitter.

O alinhamento de Vladimir Putin com Trump nas intenções em relação à U.E., com algumas diferenças nos objetivos, foram confirmadas por Ângela Merkel, em 7 de junho de 2022, num colóquio em Berlim . Disse ela que “nunca foi ingénua” em relação ao “ódio” de Putin ao modelo ocidental de democracia, tendo alertado diversas vezes líderes internacionais de que o objetivo do líder russo era destruir a Europa.

Por coincidência, Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021, Vladimir Putin invade a Ucrânia cerca de um ano e um mês depois de Donald Trump ter saído da cena da presidência. Isto diz-nos alguma coisa.  Mas, se dúvidas existissem elas são afastadas por factos que mostram uma sintonia entre ambos os presidentes, mesmo depois da invasão da Ucrânia.

Parece estar a surgir nos EUA uma tendência que aparenta que o Partido Republicano estar cansado de Donald Trump. Segundo uma nova sondagem, 51% dos eleitores republicanos dizem que preferem outro candidato presidencial em 2024. Apesar do descontentamento, a sondagem indica que mais eleitores (44%) vão votar em Biden do que no candidato do Partido Republicano, em 2024, se o escolhido voltar a ser Donald Trump (41%).

Entretanto, segundo a CNBC, a 10 de junho as conclusões de 'CPI'- Comissão Parlamentar de Inquérito acusa Trump de orquestrar 'tentativa de golpe' com invasão do Capitólio. O ex-presidente americano Donald Trump foi acusado por uma comissão parlamentar de inquérito de ter orquestrado a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 numa "tentativa de golpe". A acusação foi feita na primeira sessão televisiva da investigação realizada ao longo de 11 meses, num evento sem precedentes na política dos Estados Unidos.

Antes e depois da invasão da Ucrânia, ao desconhecer-se até onde vai e o que quer Vladimir Putin que tem por vezes obrigado o ocidente, e sobretudo a Europa a esforços diplomáticos desmedidos, Donald Trump, antes e durante o seu mandato na presidência, não ajudou em nada, antes pelo contrário. Ao elogiar Putin, Trump criou anticorpos na Europa e nos EUA manifesto num artigo de opinião no “The Washington Post” publicado no dia 22 de fevereiro de 2022 com a epígrafe “Com os seus elogios à invasão da Ucrânia por Putin, Trump faz os seus defensores parecerem tolos. Outra vez.”, e no The Guardian, na mesma data, “Trump elogia 'génio' Putin por enviar tropas para o leste da Ucrânia”. Há cerca de dez anos, pelo menos, que Putin desafia o Ocidente, infringido as leis internacionais, ignorando fronteiras e ocupando parte de dois países independentes: primeiro a Geórgia, depois o resto da Ucrânia que no início do ano resolveu invadir. Ele não esconde a sua política “revisionista” da ordem internacional, uma nova ordem como ele diz, para reconquistar as “zonas de influência” da ex-União Soviética, perdidas ao que chama derrota na Guerra Fria. Durante a presidência de Donald Trump, Putin parecia ter encontrado uma alma gémea no presidente de uma superpotência que são os EUA e cujo objetivo seria entender-se com ele. Atualmente começam a verificar-se crescentes resistências internas nos EUA, mesmo entre republicanos, à sua recandidatura. Se assim for ficarão apenas o que restar desse seu meio-irmão.

Fontes:

  1. https://www.researchgate.net/publication/327067109_Alexander_Dugin_Some_Conclusions_Concerning_Fourth_Political_Theory
  2. Alexander Dugin: Some Conclusions Concerning Fourth Political Theory
  3. https://www.researchgate.net/publication/327067109_Alexander_Dugin_Some_Conclusions_Concerning_Fourth_Political_Theory
  4. https://books.google.pt/books/about/The_Fourth_Political_Theory.html?id=Wh5afAZ-GmgC&redir_esc=y
  5. https://www.latimes.com/world-nation/story/2022-03-28/putin-ultranationalism-ideology-russia-ukraine
  6. http://grachev62.narod.ru/dugin/chapt04.htm
  7. https://www.france24.com/en/20170116-trump-nato-obsolete-brexit-great-thing
  8. https://www.bostonglobe.com/news/politics/2016/09/08/trump-keeps-praise-putin-vexing-republican-allies/psmuaCoqGLVBeS2PkPmELO/story.html
  9. https://www.nytimes.com/2016/09/10/opinion/donald-trumps-admiration-for-vladimir-putin.html
  10. https://www.mediaite.com/online/putin-writes-ny-times-op-ed-syria-strike-would-increase-violence-boost-terrorism/
  11. https://abcnews.go.com/Politics/week-transcript-donald-trump-vice-president-joe-biden/story?id=41020870
  12. https://www.adn.com/opinions/2022/07/07/opinion-trump-is-russias-best-hope-for-destabilizing-our-democracy/
  13. https://en.news-front.info/2022/07/10/trump-says-would-not-let-let-the-conflict-in-ukraine-escalate/
  14. https://edition.cnn.com/2016/07/31/politics/donald-trump-russia-ukraine-crimea-putin/